Política Brasileira 2004


“Guerra é Paz

Liberdade é Escravidão

Ignorância é Força”

George Orwell "1984"

 

Muitas coisas no encaminhamento político do governo Lula lembram os procedimentos da ditadura militar. A tentativa de governar acima ou sem o Parlamento, de controlar o Judiciário, de censurar a Imprensa e a produção cultural são alguns exemplos. A complacência quase cúmplice no episódio da nota do Exército sobre a tortura e morte de gente inofensiva como Vladimir Herzog é apenas mais um sintoma do quanto este governo aprendeu com o regime militar. Um varguista de carteirinha, então eleitor de Brizola, o saudoso jornalista Mário Curvello, já em 1989 avisava: “Nano, cuidado com o Lula... Ele é cria da ditadura!”

Acompanhar o noticiário está cada vez mais complicado. Registro a independência pelo menos dos jornais Opinião Socialista e, em menor medida, da Folha de S. Paulo . Garimpando com cuidado encontram-se alguns bons artigos de análise profunda e crítica aqui e ali, mas inacessível à maioria da população brasileira, relegada ao assistencialismo mais chulo e ineficiente. A estes o acesso à informação – de qualidade duvidosa – se dá principalmente pela televisão.

A Rede Globo de Telealienação é a mais gritantemente áulica, sempre governista – seja lá qual for o governo; parecem dizer: “Hay gobierno? Soy a favor!” Tudo faz para obnubilar, dificultar ou mesmo impedir a compreensão da realidade social, política e econômica brasileira.

Numa cobertura absolutamente excêntrica, edita as notícias de maneira a parecer que tudo vai bem no melhor dos mundos, não importa o que esteja acontecendo.

A programação daquela emissora, que trata o telespectador como se fosse deficiente mental, dando-lhe tudo pronto e mastigado, para sentir e se emocionar sem refletir, enquanto o embala com temas suaves e músicas melosas deixando-o receptivo à enorme quantidade de lixo que vendem como informação, propaganda ou cultura.

A Voz do Brasil ainda consegue se distanciar um tiquinho menos da realidade social brasileira do que a Rede Globo de Telealienação.


Alguns exemplos

Sobre o presidente do Banco Central, o operador da bolsa de valores e agente do Banco de Boston Henrique Meirelles, pesam graves acusações de remessa ilícita de recursos ao exterior, fraude eleitoral e sonegação de impostos. Acusações tão graves que Lula, para livrá-lo das primeiras instâncias da justiça e contar com o STF, sempre dócil ao governo – como ficou claro no episódio da inconstitucional e ilegal taxação dos inativos julgada, segundo seu presidente, “a partir de critérios políticos, não jurídicos... – promoveu-o a ministro. Enquanto isso, o noticiário da TV Globo trazia desinformações como “A economia atinge a retomada do crescimento”; “Cresce o número de empregos em São Paulo!”; “A produção industrial atinge novo recorde!”; “Aumenta o poder aquisitivo do brasileiro!”

Sabemos todos que a política econômica brasileira, desde Collor de Mello, passando por FHC e chegando a Lula é a de desviar recursos da produção e do trabalho para a especulação financeira. Collor foi mais brutal e direto: seqüestrou depósitos a vista e poupança para diminuir a quantidade de moeda em circulação e assim tentar conter a inflação. FHC e Lula vêm num crescente avanço contra o poder aquisitivo das pessoas que, hoje estão, pelos cálculos do DIEESE, 20% mais pobres do que estavam há 10 anos. Ora, uma mísera “bolha de crescimento” foi considerada danosa aos planos concentracionistas da equipeconômica, inclusive porque estavam apontando na direção de uma imperceptível retomada no poder aquisitivo, o que contraria a política econômica do governo. Como resultado, o grupo terrorista conhecido como COPOM decidiu-se por aumentar ainda mais a taxa de juros para aumentar a especulação, enriquecer ainda mais os banqueiros e conter o mísero crescimento que se esboçava. Aumentaram ainda mais a taxa de juros ampliando a dívida pública em 2 bilhões de reais e podaram na raiz a possibilidade de um tímido crescimento que permitisse pelo menos aos empresários respirar um pouco. Enquanto isso, a TV Globo reitera: “Brasil retoma crescimento sustentado!”; “Cresce o número de contratações no comércio!”; “Aumenta a popularidade do governo Lula!”; “Aumenta a renda do trabalhador!”; “Mais empregos são gerados dia a dia!” – e não é difícil montar a cena de um ou outro pobre coitado que conseguiu um empreguinho miserável para testemunhar de sua alegria com a retomada no nível de contratações e assim se desvia a atenção da população para o fato de que, com a atual política econômica não há como o Brasil crescer ou reduzir minimamente os índices de desemprego.

Uma nota que ainda falta explicar direito é aquela história do escândalo – o número de escândalos de corrupção neste governo supera em larga margem todos os anteriores – envolvendo o desvio de cartões da esmola que o governo se propôs a dar aos miseráveis e está destinando à classe média. “Denunciado” pela TV Globo , a rede de TV particular que se tornou porta-voz oficial do governo, traz visibilidade a um programa que quase ninguém percebe que existe, pois aos miseráveis não chega e os remediados que se beneficiam, claro, calam-se. Com isso, mais uma vez a emissora auxilia o governo...

A queda vertiginosa nos níveis de emprego e de crescimento industrial chegou a tão escandaloso patamar que qualquer lojinha de fundo de quintal que se estabeleça ( apesar , e não por causa da política econômica!) é celebrada como um sucesso extraordinário pela Rede Globo e as “boas notícias” na economia embalam uma popularidade incompreensível a um presidente que traiu não só ao seu eleitorado como à sua própria biografia!

Os anúncios retumbantes de “retomada do crescimento”,  “queda no desemprego” e “aumento de vendas no comércio” aparecem muito bem na TV mas não encontram sustentação na realidade! Quem não está desempregado está mais pobre, endividado, reduzindo seu padrão de vida e, nas ruas entre lojas comerciais vêem-se poucos transeuntes. Raros comprando e todos com o sobrecenho carregado.

Em síntese, há uma discrepância pavorosa entre o Brasil Real e o Brasil Virtual que vemos na Rede Globo de Telealienação e órgãos quejandos


Crivella Estupefato

A julgar pelo discurso que o Senador Marcello Crivella pronunciou da tribuna no último dia 19, ter sido candidato derrotado a prefeito do Rio de Janeiro lhe fez muito bem! Tanto que foi saudado pelo médico e Senador Mão Santa, do Piauí, como um desejável futuro presidente para o Brasil.

Narrou as condições que encontrou nas comunidades da periferia da cidade. Conhecedor que é de muitos pontos de nosso país, reiterou ser não apenas um fenômeno carioca, mas nacional.

Conservador, propôs a criação de uma Frente Parlamentar do Pleno Emprego, para dirimir as condições calamitosas em que se encontra a nossa população. Segundo o Senador, “nem subemprego encontrando, caem vítimas fáceis do tráfico de drogas”.

Transcrevo os trechos mais significativos:

“A estabilidade social e política da Nação está em risco. Nas grandes cidades, já vivemos um clima de guerra civil não-declarada entre o Estado legítimo, em geral omisso diante de necessidades básicas da população, e os estados paralelos do crime organizado, nos quais dezenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, buscam exercer suas estratégias de sobrevivência na ilegalidade por falta de alternativa no mercado de trabalho, legal ou mesmo informal. É patente a vinculação entre a crise social, a criminalidade e a crise de insegurança. E é óbvia a vinculação entre crise social e crise de desemprego. É evidente que a determinação desses altos níveis de desemprego ocorrem por causa da nossa política econômica.”

“É necessário romper o círculo de ferro neoliberal que sufoca a capacidade de investimento do setor público. Isso não é apenas uma palavra, um conceito abstrato. O neoliberalismo se expressa concretamente nas altas taxas básicas de juros estratosféricas; no compromisso de geração de megassuperávits primários (4,5% do PIB); na liberdade do fluxo de capitais. Em conseqüência, o neoliberalismo põe em marcha um terrível mecanismo de transferência de renda e de riqueza de pobres para ricos, na medida em que o superávit primário, extraído na economia estagnada ou quase estagnada de toda a sociedade, inclusive dos pobres (impostos indiretos), é transferido aos ricos, titulares da dívida pública, que têm inclusive toda a liberdade de dolarizá-lo e explorá-lo.”

Transcrevi, com a devida autorização do Senador, a íntegra do discurso em minha página para quem desejar. Foi sem dúvida um dos melhores discursos do Senado nos últimos tempos.

Contudo, um Senador governista discursar contra a política econômica em nada a transformará. Um dos maiores cinismos dentro da dupla moral do Capital é se condenar publicamente o que se pratica em privado. Assim se compreende porque ministros do governo Lula e até mesmo o Vice-Presidente da República – quando não o próprio Lula! – esgoelam-se em discursos contra os juros altos e a lucratividade dos bancos mas, na prática, tudo fazem para manter as coisas precisamente como estão.

Diante da frustração monstruosa que foi ver o Lula presidente, o que pode nos garantir que o discurso do Senador Crivella tem algum pé na realidade se em algum momento a ele estiverem afeitas esferas decisórias de poder político?


Economia

O grupo terrorista chamado COPOM se reuniu mais uma vez e decidiu aumentar ainda mais a taxa básica de juros.

A política econômica ultraconservadora do governo Lula tem se constituído na mais devastadora arma de destruição em massa – brasileira e de brasileiros –de que se tem notícia.

O pensamento unidimensional na economia, que só admite a ortodoxia vendo toda a alternativa como desvio, impõe aos governantes a completa submissão aos interesses do capital externo e uma verdadeira obsessão em reduzir o chamado “risco Brasil”. Como o risco dos apostadores só se reduz quando o governo dá provas cabais de ter interesse em manter o pagamento da dívida, esta é a prioridade.

Os economistas a soldo do governo concluíram que a economia estava superaquecida, elevando a possibilidade de inflação e, com isso, a possibilidade no aumento do “risco Brasil”. A única medida que eles conhecem é aumentar a taxa de juros e seguir pagando a dívida. Estima-se que, com a taxa anunciada dia 21 passado a dívida tenha crescido em cerca de 2 milhões de dólares.

Como ninguém tem dinheiro para comprar, a inflação fica contida e o risco país idem.

E a nossa gente? E os investimentos em produção, empregos, trabalho, infraestrutura, saúde e educação? Como de costume, adiados “para quando o Brasil tiver crescimento sustentado”, o que a atual política econômica, na prática, impede.

No discurso, quando os investidores externos confiarem mais no Brasil o crescimento sustentado virá. Resta saber sustentado por quem...

Um país que não se programa sequer para sustentar o seu crescimento nos trabalhadores e em sua capacidade produtiva está fadado a patinar na dependência e no crescente endividamento, ampliando a miséria dos pobres e a fortuna dos ricos.

Argumenta-se que empresários e produtores também estariam insatisfeitos. Falácia! Não conheço um único comerciante que deixe de manter recursos aplicados numa das muitas formas de jogo legalizado que lhes trazem lucros e aumentam o endividamento – que é pago com o imposto dos trabalhadores –, enquanto os produtores geram bens para exportação, até porque a capacidade de consumo do mercado interno brasileiro vem despencando pavorosamente.

Neste círculo vicioso, quanto mais o governo Lula agrada seus amigos do meio do capital especulativo, particularmente externo, menos o Brasil tem chances de sair da situação cruel em que nos enfiaram.

Há 504 anos esperamos pelo fim da espoliação estrangeira neste país. Conto-me, como bem enfatizou o brilhante Editorial do DEMOCRATA da semana que passou, entre aqueles que consideravam haver chegado o momento da mudança. Não contava que a mudança fosse para tão pior...


Enquanto os Bancários são Esfolados, os Banqueiros se Esfalfafam

Na TV ainda, os anúncios dos bancos aparecem lindos. Belas atrizes, gente sorridente e feliz, buscam demonstrar que “trabalham para você”, que nas agências você é “tratado como rei”, que ali tem até “um futuro maravilhoso”. Propagandas tão lindas e bem boladas que dá vontade de sair correndo, tomar um empréstimo e resolver todos os problemas de nossas vidas, não é mesmo? Quem assina essas notas já caiu nessa esparrela e sabe o quanto custa...

As empresas de publicidade são as melhores do mundo em nosso país. Não deve ser fácil mascarar a realidade a tal ponto que se tornam capazes de vender merda como se fosse perfume. Duda Mendonça, que elegeu Maluf, Lula e está prestes a eleger Marta Suplicy que o diga!

Com tudo isso, a realidade do tratamento que você recebe nos bancos é de arrepiar. Começa pelas filas. A maioria dos bancos não disponibiliza cadeiras sequer para que o idoso espere sentado. Não pense em usar instalações sanitárias ou matar a sede com água fresca num banco que isso não existe!

Mas estes ainda não são os maiores abusos: tarifas bancárias e os juros exorbitantes encabeçam a lista. Cobram tudo, desde talão de cheques, extratos, cartões... Não falta muito passarão a cobrar alguma coisa pelo ar que respiramos dentro da agência! Só no ano passado, os 11 maiores bancos do País abocanharam mais de 14 bilhões de reais!

Os banqueiros ficam cada vez mais ricos enquanto milhões de brasileiros passam fome, falta dinheiro para a produção e o número de desempregados ultrapassa os 25 milhões de seres humanos em idade produtiva.

Verdadeiros vampiros, os bancos esfolam e massacram seus empregados: mais trabalho, menos gente, mais clientes, salários cada vez menores, doenças profissionais, estresse, loucura!

Os salários dos bancários estão defasados há anos. Neste ano, o salário mínimo no País teve um reajuste de 8,3%, enquanto os banqueiros estavam oferecendo aos seus funcionários – antes da greve terminar – um reajuste de apenas 6%. Com o final melancólico da greve, ainda não se voltou ao assunto.  No ano passado, o Salário Mínimo foi reajustado em 20%, enquanto os bancários tiveram aumento de míseros 12,6%. Em 2002 o mínimo cresceu 11%, contra 7,0% dos salários dos bancários. Uma ganância anticristã, antidemocrática e antiética. Injustificável sob qualquer ponto de vista: o único setor da economia nacional que amplia seus lucros minuto a minuto graças ao desgoverno de Meirelles, Palocci e Lula, se recusa a tratar com dignidade seus funcionários ou mesmo tratar com um mínimo de dignidade os seres humanos que dependem de serviços bancários.

Apesar da truculência dos banqueiros, da nefasta intervenção da justiça, da mal disfarçada ingerência do governo, a recente greve dos bancários, a maior desde 1990, constituiu-se num importante marco histórico.

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves 20 de outubro de 2004






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