A Queima e os Clones

 

Queima de arquivos

Antes de mais nada, considerei estarrecedora, mas muito bem feita a reportagem da Rede Globo revelando o que eu já previa neste mesmo espaço pouco tempo atrás: aparentemente muitos arquivos secretos da ditadura militar vêm sendo destruídos há algum tempo. O processo pode ter se agudizado com a eclosão do debate sobre a necessidade (histórica, sociológica e mesmo democrática, cidadã) de se abrir aqueles arquivos.

Lembro-me, por vezes com saudades, de meu tempo de serviço ativo na Força Aérea Brasileira. Mantenho contato e dialogo frequentemente com meus colegas de farda. O que aconteceu na Base Aérea de Salvador deixa a todos na FAB estarrecidos; é inacreditável mesmo, como declarou com propriedade nosso comandante, o major-brigadeiro Luiz Carlos Bueno.

Há uma norma interna padronizada para a destruição de documentação considerada obsoleta ou o que o valha. Em todos os casos é necessária uma ordem superior por escrito, com bem embasada e aprovada exposição de motivos, que fica arquivada em segurança e o material a ser inutilizado deve ser picotado . Não há nada na legislação da Aeronáutica, até onde me foi dado conhecer, que preveja coisas como incineração .

O caso da BASV – onde estive a serviço da Rede de Comando e, como era de outra Unidade, fui identificado e conduzido aos locais onde deveria ir sempre escoltado por de um colega de farda, sargento ou oficial superior – é de uma improbabilidade lógica que desafia a razão: grupos de civis entrando e saindo livremente da Base sem que ninguém perceba? Mas aconteceu e contra fatos não há argumentos.

O Comando da FAB já instaurou um Inquérito Penal Militar para averiguar o que cargas d'água aconteceu e, como dizíamos metaforicamente no quartel em qualquer orelhada de grande porte, “cabeças vão rolar”.

O que precisa ser respondido:

_ Quando foi que o incêndio se deu exatamente?

_ A própria incidência de fogo não previsto nem avisado dentro de uma Base Aérea é algo muito esquisito. A BASV tem uma corporação de bombeiros muito competente e bem treinada. Qualquer incidência de fogo na Base é imediatamente combatida e se produz um relatório detalhado do Evento. Por que, neste caso, não aconteceu?

_ O IPM, pelo que foi divulgado na imprensa, já apurou a existência de um recipiente (possivelmente um destes sacos para lixo) cheio de documentos de mesmo tipo dos apresentados na TV e provavelmente na fila para incineração. Como é que foram parar lá? Como é que os dados de um IPM que mal começou saem assim na imprensa com tanta rapidez? Pela sua natureza, toda a investigação deve ser rigorosamente sigilosa até o relatório final, que tem de ser muito bem detalhado.

_ Segurança: como é que se entra numa Base Aérea com papéis, incinera-se, filma-se e se sai lépida e fagueiramente levando alguns chamuscados para o Fantástico? E como é que a reportagem da Globo entra sozinha e vai onde e quando quer com tamanha desenvoltura?

_ Finalmente, a primeira questão que se faz sempre que se deseja saber quem foi o autor de um delito: a quem interessa?

Um agravante muito sério: faltou informar que a própria Globo foi a principal mola de sustentação do regime militar. Ajudou na derrubada do presidente João Goulart e Roberto Marinho, seu presidente à época, orgulhava-se e estufava o peito proclamando-se “um revolucionário de primeira hora”. A censura da empresa (rádios, jornais e TV) sempre foi mais extremista que a aquela praticada pelo governo. “A Rede Globo nunca nos deu trabalho”, diziam os censores da época com alegria.

Tão importante quanto sabermos quem e por que motivos foi fichado, preso, torturado ou morto pelo regime é obter acesso aos arquivos internos da Rede Globo que, como partícipe ativa e entusiástica do regime militar, seguramente tem tanta coisa a nos revelar acerca de sua própria atuação no período (1964 - 1989) quanto aquelas que estão arquivadas – diz a reportagem da Globo – “em quartéis e residências de militares”.

Fica aos parlamentares a sugestão e um pedido de busca de aprofundamento nos detalhes sobre o acordo MEC/USAID, no contexto internacional da “Doutrina da Segurança Nacional” imposta pelo Império a todas os países fantoches da América Latina. Aquele acordo envolvia inclusive um aporte significativo de divisas estadunidenses que ocorreu em 1965 através do grupo Time-Life à Rede Globo, revelados no imperdível documentário que Simon Hartog fez em 1993 para a BBC: “Beyond Citizen Kane”, disponível na Internet pelo Centro de Mídia Independente. Para mais detalhes, clique aqui


Clone de Tucano

FHC fez um magnífico discurso na terça-feira passada. Disse, entre outras coisas:

“Ouço discursos de líderes atuais, alguns estão bem lá em cima. Meu Deus, eu me lembro do que eles falavam e do que eles falam. É tão diferente. Eles costumam afinar a voz para falar com a nossa voz, mas sai em falsete. Sai em falsete porque não sai do coração. Sai do oportunismo, sai da vontade de não perder a posição.”

O presidente do PT respondeu dizendo que FHC não deve utilizar o princípio “esqueçam que governei”, o que está certo. Mas Genoíno, Lula e o governo petista não devem tampouco utilizar o princípio: “esqueçam-se de quem fomos e de tudo por que lutamos”.

Cresce o sentimento de que votamos na esperança de mudança e acabamos elegendo um bando de clones de tucanos.

Os queixumes de alguns líderes do PSDB no Senado esta semana seriam engraçados se não fossem trágicos: “ não suporto mais lidar com o governo do PT: um discurso limpo e polido, apolíneo, por um lado e uma atuação sórdida, eivada de armações à socapa, uma realidade dionisíaca, por outro. ” Mas os tucanos são professores neste tipo de procedimento há anos! Que os petistas hajam aprendido esse tipo de coisa é que dói.

Dói mais ainda ser obrigado a concordar com a precisão da análise do professor FHC: “ ninguém é imbatível ”. Como os petistas, no governo, continuam a seguir os rumos aprendidos com os tucanos, o mais provável mesmo é que o grande capital financeiro, na próxima campanha, se mobilize para remover os clones e fazer voltar os originais.


Partidos partidos

O PMDB fez uma reunião de porte nacional no domingo 12 de dezembro com vistas a marcar posição e possivelmente “sair do governo”. O que deveria ser uma Convenção Nacional acabou destroçada por uma Liminar concedida a pedido do senador da ala governista do PMDB Ney Suassuna.

Segue o imbróglio: os ministros – e dezenas de quadros em altos escalões do governo petista – do PMDB terão de sair do governo ou do partido? Houve até mesmo o rumor do lançamento, pelo Lula, do nome de José Sarney para a presidência do PMDB. Desde quando um dirigente petista – no exercício do poder ou não – tem autoridade para impor quem deve ser ou não o presidente de um outro partido, supostamente soberano?

O PPS, ex-Partidão, realizou – aí sim – uma Convenção e decidiu pela saída do governo. Ciro Gomes colocou o cargo à disposição – redundância desnecessária, no sistema presidencialista o cargo de ministro sempre está à disposição do governante, como ficou claro no episódio da demissão de Cristóvão Buarque por telefone – mas segue firme no cargo. Até quando?

Na mesma semana, 25 deputados federais do PT fizeram uma declaração contrária à aprovação de medidas lesivas aos interesses dos trabalhadores no Congresso Nacional. Interessante: falam, falam, falam e seguem firmes em seu partido e no apoio ao governo de Lula, ou seja, do FMI e dos banqueiros. Não é o que parece. Trata-se de discurso eleitoreiro; eficiente e produtivo para os interesses da Banca internacional, que fica até parecendo democrática e afeita à crítica e mais eficaz ainda para a campanha de cada um dos 25, que podem tranquilamente desfilar em Palácio como aliados e entre os opositores como se também o fossem. Esse tipo de político é, talvez, mais perigoso do que aquele cujas verdadeiras faces já conhecemos. Nenhum político brasileiro tem duas caras. Duas caras é coisa de amador!


Grupo terrorista ataca novamente os brasileiros

O grupo terrorista de destruição de massas de brasileiros conhecido pela sinistra alcunha de “COPOM” decretou, com o beneplácito do Palácio do Planalto, novo aumento na taxa de juros. Novos ataques do grupo, no mesmo sentido, são esperados mês a mês. Na mesma semana Lula anunciou um reajuste de R$ 1, 33 por dia para o Salário Mínimo. O anúncio foi feito em termos retumbantes “Aumento do mínimo para R$ 300,00” e, em tom mais calmo e somente perceptível com muita atenção: “a vigorar a partir de maio de 2005”, ou seja, haverá novos aumentos de tarifas, taxas de juros, gêneros alimentícios, medicamentos, etc. anulando na prática os efeitos do reajuste miserável. Tudo, claro, sem que o índice oficial da inflação seja afetado, porque “ficaria muito mal para a imagem do Brasil no exterior”.

A maioria dos brasileiros – e não me refiro somente ao governo – ainda acredita ser mais importante a imagem que se faz da realidade do que a realidade em si. Ao invés de se buscar transformar a realidade em algo digno de orgulho “lá fora”, como seria lógico e a maioria dos países do mundo o faz, por aqui toda e qualquer tentativa de se trabalhar, escrever ou buscar alternativas em busca de aperfeiçoar a realidade é repudiada, rechaçada, reprimida ou censurada. É o império da imagem acima de tudo. O tempora! O mores!

A tentativa de censurar a imprensa através da criação de um Conselho Federal de Jornalismo, proposto pelo pequeno sindicato chamado FENAJ, está temporariamente contida. Não passou na Câmara dos Deputados. Menos mal. Paira sobre nós ainda a ameaça da ANCINAV. Dentro da novilíngua petista, devemos entender “regulamentação” e “controle” claramente como “censura”.

Enfim, o governo do PT insulta mais uma vez a dignidade e o intelecto (utilizo aqui a expressão na mesma acepção ensinada há 80 anos por Antônio Gramsci em Maquiavel, a política e o Estado moderno : “ todos nós somos intelectuais quando lemos jornais, quando assistimos a um filme ou a uma peça teatral, quando vamos ao museu, etc. ”) do trabalhador. Oferece R$ 300,00 para o cumprimento do que reza a Constituição Federal em seu Artigo 7º, IV: “O salário mínimo deve ser capaz de atender a todas as suas [do trabalhador] necessidades básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social”. Com R$ 300,00?


CPMI do Banestado

Todos esperando um Relatório e o que se viu foi mais uma peça de propaganda política, acirrando ânimos, criando rancores e causando celeuma. Por exemplo, não há referência alguma a Henrique Meirelles, contra quem pesam acusações gravíssimas de crimes na esfera pessoal e ética – algo como envio de divisas ao exterior com o uso de doleiros não é comportamento que se espere de um presidente do Banco Central. Paulo Maluf finalmente indiciado pela polícia sequer é mencionado no Relatório. Ambos são hoje parte da chamada “base de sustentação” do governo petista.

Gustavo Franco tem mesmo de explicar a situação de facilitação de transações no mínimo suspeitas em algumas agências bancárias na Tríplice Fronteira Brasil-Paraguai-Argentina.

Dá para entender, não dá é para aceitar esta predileção por incriminar oposicionistas – alguns são inclusive maliciosamente citados: “não se encontrou nada sobre o fulano” – e se omitir até mesmo o nome de qualquer participante como Henrique Meirelles, ou apoiador, como Paulo Maluf, do atual governo.

Mais grave mesmo é uma CPI descobrir que muitos recursos foram desviados para o exterior de maneira ímproba e o relatório só conseguir propor a anistia fiscal a todos que tenham mandado dinheiro para fora e queiram trazer de volta. O PT ensina que é irracional ser honesto no Brasil.

O Relatório é uma piada de mau gosto. Se for mesmo aprovado pelo Congresso, sem reparos, a Casa Civil – que sempre esteve por trás das manobras em torno do Relator – terá conseguido o seu intento: desmoralizar a Instituição da CPI – o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, para preservar-se no cargo em detrimento da ética e do sistema Republicano que, dizem, vivemos, conseguiu evitar a mera instauração de duas que levavam até pessoas muito próximas a ele: a de Waldomiro Diniz e a dos Bingos. Ao término da leitura pelo relator da CPMI do Banestado, o Senador Pedro Simon (PMDB-RS) não se conteve de indignação: “ estou vivendo hoje o dia mais infeliz de toda a minha vida pública.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 16/12/2004






© Copyright libertad-digital.com





Development Services Network Presence
www.catalanhost.com