O Mas Grave

 

Mauro Chaves

O mais grave não é o deslumbramento do presidente pelo prazeroso desfrute do poder, ou seu suposto "gosto pelo luxo" - que só agora alguns de seus antes fervorosos admiradores parecem descobrir. Não será a satisfação presidencial de degustar um Romanée Conti , ou de saborear cordeiros da Patagônia, ou de usar roupões de linho egípcio, ou de ter à disposição um Ômega australiano e um avião importado sob medida, com chuveiro - enquanto exerce seu papel de líder mundial contra a fome -, que deve causar maiores preocupações à sociedade brasileira.

O mais grave não é a incoerência ideológica, que leva a se repetir hoje, de forma piorada e sem os corretivos originais, tudo aquilo que se torpedeou por mais de duas décadas - em termos de política econômica (mais favorável aos spreadadores do que aos produtores e trabalhadores), de arregimentação fisiológica de base parlamentar, de abafamento de investigações comprometedoras ou de blindagem de acólitos suspeitos.

O mais grave não é o descumprimento de promessas, ou o estardalhaço de lançamento de programas sociais que logo se tornam um shakespeariano muito barulho por nada (much ado about nothing) e, na melhor das hipóteses, não passam de rebatismo de programas alheios, só que mal gerenciados, sem exigência de contrapartidas, ou fraudados (como o Bolsa-Família) ou reduzidos ao velho assistencialismo esmoler, em vez de ser um empuxo ao esforço das famílias visando ao próprio desenvolvimento, pela via insubstituível da educação.

O mais grave não é a desarticulação governamental, que produz desastradas cabeçadas interministeriais, com ministros criticando programas de governo e o chefe de Estado e governo contestando-os publicamente - e ficando tudo por isso mesmo, numa zorra descoordenada, enquanto os áulicos (de dentro e de fora do governo) balançam verticalmente a cabeça, qual sorridentes (e ruminantes) vaquinhas de presépio, ao ouvirem as platitudes dos improvisos presidenciais, num gestual de encantamento, como se estivessem a absorver a sabedoria, em estado puro, de um portentoso estadista.

Mas, então, se não é nada disso, o que é o mais grave?

É o que inocula no espírito da juventude brasileira um assombroso ralo de esvaziamento de valores: é a verdadeira conspiração em curso, neste país, contra o mérito e o esforço do aprendizado. É o conceito de merecimento que se vai esboroando. É o empenho individual na aquisição de conhecimentos que se vai desmoralizando. Parece que se está tentando implantar no País uma espécie de Revolução Incultural (talvez embasada numa Doutrina da Neo-Ignorância), que relega ao desprezível "elitismo" todo o esforço pessoal do aprendizado, toda a busca de conhecimento, para aperfeiçoamento. "Muitos que leram tudo e estudaram muito não fizeram nada pelo Brasil" - eis aí a síntese doutrinária, emanada do Planalto, que tem por conclusão silogística a iluminada dedução: "Logo, os que não lêem e estudam pouco têm condições de fazer mais pelo Brasil."

É assim que se combate o "elitismo" dos que se esforçam para adquirir saber, para conhecer. Por exemplo, combate-se o "elitismo" da exigência do inglês (e de cultura geral) no Itamaraty, impõem-se regimes de "cotas de acesso" (raciais e de outros gêneros) nas universidades, rebaixam-se exigências - para deixar preparados e despreparados em iguais condições de competitividade -, substitui-se o julgamento da aptidão técnica, do engenho, do talento, da operosidade pelos eflúvios sinergéticos do compadrio, do companheirismo, das afinidades de cupincha, a ponto de o velho quociente de inteligência (Q.I.) ter cedido lugar, definitivamente, ao método ascensional pela via do "quem indica" (Q.I.).

Na verdade, o "aparelhamento" geral da administração pública federal, que vai esgarçando o tecido cultural, cognitivo, técnico - e ético - de instituições permanentes do Estado, como o Itamaraty, produz estragos muito maiores do que os das distorções administrativas decorrentes da partidarização governamental. É que, para as novas gerações, ele alimenta a mentalidade perniciosa da política enquanto "atalho" - de crescimento profissional,econômico, social - sem o esforço pessoal, às vezes penoso, do aprendizado. É claro que governo algum pode ser o responsável isolado por esse tipo de mentalidade - mas, sem dúvida, estimula, em todos os campos de atividade, a ilusão de vencer na vida por meio do menor esforço.

O programa Big Brother-5, da Rede Globo, é uma das ilustrações mais emblemáticas do grande sucesso dessa conspiração. Num simulacro capenga de realidade e representação, jovens buscam o estrelato e a fortuna por um "atalho" direto rumo ao status de celebridade, que dispensa quaisquer preparos - desestimulando pretendentes a atores e atrizes ao estudo das artes cênicas, ou a participarem de grupos teatrais e demais empenhos necessários ao início de uma boa carreira artística. Confinados numa casa confortável, vivendo um ócio langoroso, sem demonstrar interesse especial por assunto algum, os participantes desse huis clos apenas exibem um narcisismo barato, expresso em conversas tolas, sem nenhum conteúdo aproveitável, forçando artificialmente - e banalizando - tanto relações amorosas quanto noções de liderança.

A Globo, capaz de produzir seriados de excelente qualidade - como o Hoje é Dia de Maria, um mergulho no realismo mágico da alma popular brasileira - e até de exibir ótimos enlatados, como o 24 Horas - verdadeira aula de carpintaria dramatúrgica em roteiro de ação máxima, com unidade de tempo e ação (como no teatro grego) -, ainda não percebeu que, com a bobagem desse Big Brother, importou um vírus imbecilizante, capaz de, a médio prazo, estragar o senso crítico, o gosto de seu telespectador, o esforço de aprendizado de seus futuros elencos e, a longo prazo, a qualidade da audiência de suas novelas e seriados – seu melhor produto. Neste sentido, esse BBB é uma cabeça de ponte ou patrulha avançada da conspiração contra o mérito, que parece pretender esboroar a inteligência e a criatividade do povo brasileiro.

Mauro Chaves, jornalista, advogado,administrador de empresas, escritor, produtor cultural e pintor, é autor, entre outros livros, de Eu não Disse? (Ed. Perspectiva).


Eu não Disse? - Mauro Chaves






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