Macroeconomia, política, filmes e o Natal

 

Macroeconomia

Por vezes alguém comenta o fato de eu não tecer considerações sobre macroeconomia, demonstrando uma visão parcial da realidade. Argumento que alguém tem de fazê-lo. A visão unidimensional apresenta explicações excepcionais e coerentes mas o povo vive mal. Ao que tudo indica, sem tomarmos em conta uma visão macroeconômica, não compreenderemos os motivos que levam o Brasil a melhorar diante do quadro que se apresenta:

. perda de poder aquisitivo por parte dos trabalhadores que estão hoje cerca de 40% mais pobres do que o eram há 20 anos;

. 85% dos brasileiros declaram ter dificuldades para chegar ao final do mês.

. a renda do país passa por largos períodos de estagnação e reordenamento fazendo com que hoje menos de 40% dela (renda) seja oriunda do fruto do trabalho honesto. Já esteve em patamares próximos a 70% mas depois da melhora macroeconômica, estamos muito mais pobres.

. na América Latina, onde o risco-país é maior, o povo vive melhor e os bancos lucram menos. Onde o risco-país é menor, o povo vive pior e os bancos lucram mais.

Há muitas informações e muitos dados homologadores do que aqui se postula, mas a macroeconomia, enquanto ciência voltada a explicar os motivos que levam o capital a merecer mais atenção do que o ser humano não me atrai pessoalmente e confesso até o que se poderia chamar de preconceito: acredito que o ser humano seja mais importante que o capital e que a vida seja mais relevante que a propriedade. Não me sinto atraído em nada por ciências que visem desmantelar a base de minha fé ou subverter-lhe os princípios.

Eu já sei que sem o conhecimento macroeconômico não conseguirei vislumbrar justificativas para um presidente e um partido que traem o seu povo e a sua própria trajetória histórica. O conhecimento macroeconômico quer nos aproximar das justificativas para a falta de ética, para a improbidade administrativa e para o arrocho aos seres humanos em nome do capital. Terei de viver sem este conhecimento que, pontua ainda em meu desfavor, é o único autorizado nas redes pública e particular de ensino superior, sendo vedada qualquer visão humanista alternativa.

Está claro que, para o risco-Brasil diminuir é preciso que as taxas de juros atinjam a estratosfera, que o superávit primário elevadíssimo seja a prioridade absoluta e inquestionável de governo e que todo e qualquer movimento por melhoria salarial seja combatido como mera movimentação eleitoreira por parte de uma oposição que não tolera ver o Brasil acertar. Nada contra o Brasil acertar. Mas se o preço deste acerto é vermos nossa gente cada vez mais desesperada, ficamos imaginando se não seria possível acertar de outra maneira, se os sucessivos governos não têm ficado muito presos a esta visão unidimensional da macroeconomia afastando-nos de qualquer possibilidade que acene com a recolocação dos seres humanos no centro das considerações políticas e econômicas.


Estabelecendo Prioridades

Antes e acima dos discursos, não se pode perder de vista que a maior e principal prioridade deste governo é manter o especulador internacional tranqüilo quanto à sua lucratividade no Brasil. Para tanto o Banco Central foi informalmente privatizado e Henrique Meirelles está autorizado a fazer dele seu feudo particular, sem se preocupar em demonstrar qualquer tipo de escrúpulo de cunho ético ou humanitário. Ficam a propaganda e as redes marionetes de imprensa, rádio e TV incumbidas de silenciar-se quanto a esta prioridade absoluta de governo. O Brasil produz pouco, acima de tudo matéria prima para exportação e o grosso desta produção irá para a engorda do capital especulativo internacional através de impostos ou taxas que deságuam no Banco Central. Quando votamos em Lula para presidente, na verdade estávamos elegendo Henrique Meirelles e seu assessor imediato e informal Antonio Palocci gestores de toda a economia nacional.

José Dirceu, que mantinha Waldomiro Diniz no 4º andar do Palácio do Planalto em convívio fraterno com contraventores, informa que “a prioridade do governo no próximo ano será o combate à corrupção”. Um dia antes de José Mentor – que, junto com Ideli Salvati e outros formam o mesmo grupo – ler um relatório que, na prática funciona como uma peça em trabalho pelo descrédito do instrumento importante de que o Parlamento brasileiro dispunha para afirmar a sua soberania.

Em fins de 2003, o anúncio da prioridade para 2004 foi estabelecida como “o combate à fome”. E o resultado prático foi um desastre: corrupção, malversação de recursos públicos e inépcia administrativa. Na propaganda governamental – formal ou informal – o resultado apresentado, naturalmente, é outro: “o problema do brasileiro não é mais a fome, é a obesidade”, sic.

Luiz Gushiken muda o eixo da propaganda que, do individualismo fóbico (“O melhor do Brasil é o brasileiro”, “sou brasileiro e não desisto nunca”) passa para a pregação dos valores da família. Através do Banco do Brasil amplia-se a propaganda pró-governo e anti-povo. Usa-se o indivíduo desviante ou a família que, apesar de todas as desgraças que o governo impõe consegue se manter, como exemplos do que fosse a família brasileira. Interessante para vermos como é esta família que o governo pretende e gosta de ver.


Congresso em trabalho frenético

Segundo os jornalistas mais antigos e conhecedores do assunto, o Parlamento brasileiro trabalha mais sob pressão e estas semanas finais de 2004 o demonstram: aprovaram, com pequeninas modificações cosméticas, praticamente tudo o que o governo Lula determinou, da Lei Delúbio ou lei das PPP's à pseudo-reforma do judiciário.

Definida ainda a sucessão de João Paulo Cunha e José Ribamar Sarney. Após o término dos conchavos, armações, chantagens e subornos de praxe devem ser eleitos, para o biênio 2005-2006, José Eduardo Greenhalgh presidente da Câmara dos Deputados e Renan Calheiros ex-aliado de Collor em Alagoas, para a presidência do Senado Federal.


Tirando o bode da sala

Mário Henrique Simonsen, certa feita, contou-nos uma historinha, cuja autoria ele mesmo desconhecia e que era mais ou menos assim:

Um chefe de família que já não suportava os queixumes da esposa, sempre a reclamar mais dinheiro para despesas e que ele participasse mais dos eventos da família, encontrou uma solução: comprou um bode e determinou que fosse criado na sala-de-estar.

A prioridade da família passou a ser alimentar o bode, limpar o bode, desodorizar o resto da casa como possível que o cheiro do bicho era insuportável, etc. Assim foi no primeiro mês, no segundo mês e, no terceiro, diante da ameaça de divórcio, com filhos já prestes a fugir de casa, retirou o bode da sala e todos foram felizes para sempre, ficando totalmente esquecidas as queixas iniciais.

Deve ter sido esta a escola da macroeconomia petista-lulista...


Reeleição

2004 chega a seu final com notícias de corrupção, crimes (Duda Mendonça chegou a ser preso e indiciado por formação de quadrilha, crueldade com animais e apologia ao crime), escândalos (Henrique Meirelles é suspeito de crime eleitoral e evasão de criminosa de divisas já na Presidência do Banco Central), inépcia (o Fome Zero quase zerou a mesa do brasileiro mesmo), suborno (Lula comprou o voto de parlamentares em troca de recursos mas não os pagou) mas, acima de tudo, um calote no político e no social para ampliar o desvio de recursos da produção para a ciranda financeira, deixando o brasileiro mais pobre.

Como resultado a popularidade de Lula atinge índices inquestionavelmente (como assim? Ninguém me entrevistou!) altos em todas as empresas que se dedicam a este tipo de medição.

Em reunião com prefeitos petistas ensina: “nos dois primeiros anos, façam todos os ajustes e pratiquem a maior austeridade fiscal e monetária possível ao limite da irresponsabilidade. No terceiro podem afrouxar um pouquinho – a exemplo do proposto salário mínimo de R$ 300,00 – e, no quarto, o ano da reeleição, que seja tudo festa e alegria.”

Por aí a gente depreende que 2005, o sufoco, a agonia do brasileiro diminuirá um pouquinho. Em 2006 pode haver até mesmo uma folga maior se Lula conseguir convencer a autoridade econômica a que se subordina voluntariamente que isso trará algum tipo de vantagem para os bancos e sua macroeconomia.

Pondero dois detalhes:

1) Lula se auto-impôs uma subordinação inédita à autoridade econômica e tem como prioridade absoluta o envio de recursos brasileiros ao exterior e o desvio de recursos da produção para a ciranda financeira, o que limita muito sua margem de manobra para pirotecnias de cunho pseudo-social.

2) Se num quadro mais que negro sua popularidade explode de maneira insana e incompreensível, sua reeleição será uma fatalidade inescapável diante da pífia melhora que se anuncia. A alternativa que se apresenta hoje, e que vai ficando mais e mais improvável, é um retorno do príncipe dos tucanos ou algum de seus asseclas com maior popularidade. Pobre Brasil...


“Eu, Robô” – a dialética do senhor e do escravo

O filme “Eu, Robô”, de Alex Proyas, baseado no livro homônimo de Isaac Asimov me foi tanto recomendado que acabei por assistir. Aquele livro e a trilogia “Fundação” marcaram de tal modo a minha geração que mais de um sociólogo encontrou ali a sua vocação. Não sou exceção. No Canto 2 do Inferno, se não me falha a memória, Dante Alighieri dizia: “vi a sombra de um cocheiro que, com a sombra de um esfregão lavava a sombra das costas de um cavalo”. O filme, embora muito rico em efeitos especiais, é superficial em reflexão filosófica – a essência do livro de Asimov – e não passa da sombra de uma sombra. Vale à pena assistir. Mas vale muito mais à pena ler o livro!

A mente genial do físico russo radicado nos EUA, Isaac Asimov, criou nesta obra as famosas “Três Leis da Robótica”: 1 – Um robô não pode fazer mal a um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal. 2 – Um robô deve obedecer ao ser humano a menos que a ordem esteja em conflito com a Primeira Lei. 3 – Um robô deve preservar a sua própria existência a menos que este preceito entre em conflito com as duas primeiras leis. Girando em torno de reflexões lógicas e filosóficas, Asimov cria uma série de situações geniais que demonstram a precisão das leis e imprecisão do discernimento humano colocando, ao final do livro, todas as decisões macroeconômicas da humanidade ao cargo de robôs a quem os seres humanos acabam por se subordinar, criando um conflito com a segunda lei e determinando que os próprios robôs deduzam a necessidade de deixar de existir ou governar de maneira oculta a humanidade, para o maior bem ou menor mal ao ser humano.

O filme apresenta uma costura de dois ou três dos nove episódios do livro criando uma situação nova girando em torno de quem manda e quem obedece a quem.


“O Último Samurai”, conflito entre o velho e o novo

Situado em final do século XIX, o filme de Edwar Zwick com Tom Cruise como ator principal apresenta uma versão interessante de como teria sido o choque do novo no Japão sob a dinastia Meiji. O que entrou para a história como “Revolução Meiji” foi um processo crudelíssimo de descaracterização do Japão feudal e sua inserção no mundo do capitalismo globalizado.

 A globalização do século XIX, manu militari e liderada pela Inglaterra se apresentou como uma desumana intervenção militar na África e na Ásia (a Partilha afro-asiática, precursora da I e da II Guerras Mundiais) levando a civilização e a industrialização a comunidades atrasadas ainda que para isso fosse necessário massacrar comunidades dissidentes. A revolução Meiji é a versão japonesa desta inserção e o filme “O último samurai” retrata muito bem um dos episódios de massacre de comunidades resistentes ao novo. Uma das versões brasileiras do episódio, sobejamente conhecida em São José do Rio Pardo, é a Guerra de Canudos. Outro, guardadas as proporções e algumas particularidades, a Guerra do Paraguai. Em ambos os casos o Exército Brasileiro massacra uma comunidade resistente ao novo em nome da civilização e da industrialização.

Nada de novo debaixo do sol. Na globalização portuguesa e espanhola dos séculos XVI e XVII massacraram-se milhares de comunidades tribais, no que se configurou no maior genocídio da história da humanidade, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Na globalização britânica do século XIX massacraram-se milhares de comunidades originais “em nome da civilização e da industrialização”. Na globalização estadunidense dos séculos XX e XXI massacram-se silenciosamente milhares de povos “em nome do capital e da macroeconomia”, tornando a intervenção militar (Afeganistão, Iraque, Haiti) meramente episódica uma vez que a maior parte dos dirigentes dos países atrasados se entrega de bom grado e mesmo lidera processos subalternos neste delírio insano. Foram necessários 200 anos para o estudo da globalização britânica com alguma isenção e serão necessários outros 200 para o estudo apropriado e desapaixonadamente distanciado da hecatombe atual.


Feliz Natal

A meus dois leitores fiéis – “Ei já são três!” Dizem-me amigos. Seja. Que as alegrias e bênçãos do Natal se multipliquem ao longo de 2005. Se o pessoal se lembrar do aniversariante no meio do delírio consumista em que a Festa de Natal se transformou, melhor ainda!

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 23 de dezembro de 2004






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