Ressonância Schumann, balanços e expectativas

2004 começa em Abu Ghraib e termina no Oceano Índico

 

O ano de 2004 já entrou para a história. Ao começo do ano, fotos do presídio de Abu Ghraib, no Iraque: a destruição que o ser humano pode infligir a outro. Ao término, a destruição que a natureza pode infligir ao ser humano: terremoto no fundo do mar na região entre a Indonésia e o Sri Lanka provocando ondas gigantescas e ceifando vidas...

Místicos de outros tempos deixaram-nos o legado do conhecimento da Música das Esferas. Cada astro celeste emite um determinado padrão vibratório a que os Caldeus, por exemplo, associavam um som, uma cor e um dia da semana. Aprimorando a astrologia caldéia e egípcia, gregos e romanos passaram a aprofundar tais estudos. O período de cerca de 1.000 anos que medeia a queda do Império Romano até o renascimento, esteve marcado pela retração de tais estudos – a bem da verdade, de quaisquer estudos não previstos pela Bíblia ou pela obra de Aristóteles e Tomás de Aquino. O renascimento os toma – ainda com as restrições de praxe por parte da fé católica – buscando na magia a resposta a uma série de questões humanas. Os magos que surgem na Europa renascentista acreditam que pela similitude se pode conseguir uma série de eventos. Assim, ao Sol foi atribuído o número 1, a nota musical lá, a cor branca, o dia de domingo e o arcanjo S. Miguel. À Lua, o número 2, a nota musical mi, a cor prata, o dia de segunda-feira e o arcanjo S. Gabriel. Assim por diante, entrando os planetas e estrelas mais distantes também em consideração. Até bem pouco tempo, nada se conseguia conhecer sobre a vibração de nosso próprio planeta.

Dia desses recebi por e-mail uma mensagem sobre uma certa “Ressonância Schumann”. Não me conto, felizmente, entre a triste maioria para quem a “prova científica” é o tributo único da verdade. Assim tendi a aceitar, até refutação razoável, a tese atribuída a um pensador de nome Schumann: a descoberta da freqüência vibratória do planeta Terra, que estaria, na década de 50 do século XX, em 7 ciclos por segundo ou 7 hertz. A mensagem afirma que sem o suporte desta vibração nossos astronautas sofreriam de distúrbios diversos, que variavam de leve irritação até a depressão profunda podendo culminar até em sua própria morte. A reprodução do “batimento cardíaco da mãe-Terra” traria novamente o equilíbrio. Segundo a mensagem esta freqüência foi alterada para mais de 12 hertz por uma série de equívocos perpetrados pelo homem na tentativa de domesticar a natureza depredando-a (florestas foram destruídas, nasceram desertos novos, a queima do petróleo e o despejo enorme de CFC provoca buracos na camada de ozônio, alterações climáticas e assim por diante). A terra estaria vibrando em freqüência mais elevada e com isto estaríamos sujeitos a uma série de transformações velozes demais, vertiginosas demais para o nosso psiquismo. Conversando com um amigo protestante, fiquei sabendo que, segundo a sua fé, “isto é bíblico”, ou seja, está previsto o acontecimento de algo assim “no final dos tempos”.

Há tempos deixei de acreditar em coincidência. Seja como for, estava justamente refletindo sobre estas coisas quando li na Folha de S. Paulo sobre o acidente geológico monumental que já ceifou mais de 100 mil vidas humanas à volta do Oceano Índico. Estas coisas apocalípticas mexem com o nosso psiquismo. Fomos criados numa cultura que aprende desde a mais tenra infância o profundo valor da profecia, particularmente da profecia bíblica. E o apocalipse de S. João é o último livro da Bíblia...

Inquestionavelmente estamos estragando o nosso planetinha e cabe ampliar os cuidados. O que alguns pensadores ousaram chamar de “Nave Espacial Terra 1” é um planeta de recursos necessariamente limitados que estão sendo destruídos indiscriminadamente e já começamos a pagar por isso. As futuras gerações não terão muito o que herdar nem muito o que agradecer...


No Brasil, coerência ideológica se transformou em motivo
para punições crescentemente severas

Declarando-se em defesa da democracia, da república e do interesse nacional, podemos esperar novos ataques do PT contra a democracia, o regime republicano e os interesses nacionais, tais como: privatização do Banco Central do Brasil, que já é incumbência dos jogadores internacionais na Bolsa de Valores e outras formas não produtivas de participação na economia. Temendo que seus interesses pouco éticos possam ser questionados por algum presidente eleito democraticamente, evadem-se da justiça, da política e da possibilidade de uma redução em seus ganhos pouco patrióticos e nada confessáveis. Ficam imaginando a possibilidade de o Brasil ter novamente um presidente nacionalista como Vargas e arrepiam-se em terror. O projeto de criação da ANCINAV, órgão que, inspirado pelos estadunidenses, pretende controlar o conteúdo de toda a difusão cultural brasileira, inclusive páginas na Internet e telefones celulares. Nada que fale a verdade sem o consentimento governamental poderá circular livremente. Não é legítimo sequer pleitear esta agressão à democracia. Que o governo mantenha o projeto no Congresso Nacional é um descalabro. Que o Congresso se submeta ao Executivo, como se tornou prática neste governo, assim como o Poder Legislativo já o faz, é uma monstruosa agressão ao próprio regime republicano. Onde o Poder Executivo governa, legisla e julga fica o regime republicano descaracterizado.


PT solidifica transformações situando-se hoje à direita do PSDB

Após passar 8 anos vociferando contra a subserviência abjeta dos tucanos ao FMI, inclusive nomeando um megaespeculador como Armínio Fraga para a presidência do Banco Central do Brasil, o PT vai mais longe do que o FMI exige, elogia a atuação do FMI e nomeia o megacorrupto e ex-presidente do Banco de Boston Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central dando uma passo a mais: visa privatizar a entidade! Quem não muda com o PT é expulso do PT. Dentro do partido só podem permanecer os cordatos, que fingem ser oposição quando convém e ser situação, também quando convém.

Na oposição, o PT dizia claramente que era necessário suspender o pagamento da dívida econômica – interna e externa – e honrar a dívida social. No poder, dá um calote no social e no político para aumentar o pagamento dos juros da dívida que só faz crescer pois o próprio PT autoriza juros estratosféricos em nome de um equilíbrio das contas mas, paradoxalmente, esta atitude deixa o Brasil em posição mais frágil na avaliação internacional, do que a Argentina.

Na oposição, o PT atacava violentamente todas as medidas que agredissem o trabalhador. No poder, encaminham ao Congresso Nacional um projeto de “flexibilização da legislação trabalhista”, incluindo a extinção do direito a férias remuneradas acrescidas de 1/3, licença-maternidade e a multa rescisória de 40% sobre o FGTS.

O partido ontem vociferava contra a política de juros altos de FHC. No poder ultrapassa em números toda a loucura tucana, levando-nos bem próximos à situação vivida na era Sarney: jogar na especulação hoje rende muito mais do que produzir no Brasil.

Lula era o maior crítico da enorme quantidade de viagens de FHC ao exterior. No poder Lula já viajou mais do que FHC e ainda comprou um avião que já vai a mais de R$ 200 milhões, pagos com o suor do trabalhador e o dinheiro desviado dos programas sociais, emperrados.

Usando as metáforas petistas-lulistas, vemos que estavam esperando a bola transmitindo a clara impressão de que saberiam o que fazer com ela, não que iam “jogar no tempo certo, sem precipitações”. Com a bola nos pés e sem saber o que fazer com ela, dão continuidade aos desmandos e loucuras tucanas, piorando-as enormemente na direção de ampliar a lesão ao trabalhador brasileiro.


Guaribas

A cidade do Piauí para a qual Lula levou uma caravana de ministros em 2002, é tida até hoje como “cidade-piloto” do programa Fome-Zero. Em recente viagem por lá, uma equipe de cineastas ligados à TV Educativa do Rio de Janeiro verificou que os cidadãos de Guaribas chegam ao final de 2004 mais miseráveis e desesperados do que o estavam em 2002. Uma cidade em dificuldade, que no curto período de dois anos viu se afastarem, por corrupção, dois prefeitos em seqüência, não é apenas modelo para o Fome-Zero, é uma clara demonstração do fiasco em que se transformou o governo petista.


Números

Ao longo deste ano, os números foram brandidos como prova da verdade. Os números vão muito bem. O povo, infelizmente, vai muito mal... O governo brasileiro deveria servir aos seres humanos, que estão em situação existencial cada vez pior, não aos números.


Expectativas para 2005

Internacionalmente Jorge Bush lidera o processo de agressão à democracia e à paz entre os povos com fúria renovada. Deve ocorrer um “julgamento” de Saddam Hussein mas não há indicação de tão cedo se levar o dirigente estadunidense, culpado de agressões e massacres muito mais abrangentes e severos que aqueles perpetrados pelo ex-dirigente iraquiano, às barras da Justiça Internacional.

Desde 2002, o Brasil, país com maiores chances de se apresentar no cenário internacional como um contraponto aos desmandos estadunidenses, optou, na pessoa dos governantes, por uma aliança aos EUA contra o povo brasileiro e a democracia como valor universal. A opinião pública brasileira segue hipnotizada pela mídia e a opinião pública mundial já percebe a traição que Lula e o PT perpetraram contra as esperanças de todos os povos do mundo...

Lula diz que 2005 será o ano que lhe permitirá fazer tudo aquilo por que lutou e com o que sonhou ao longo de toda a vida. Reles peça de propaganda e figura pesada de retórica. Para o líder sindical e militante da CUT, simpático ao MST e antagonista do FMI cumprir esta promessa precisaria começar pela demissão de Meirelles, Palocci, Manteiga e Dirceu e chamando para o ministério gente ligada aos movimentos sociais. Na prática manterá estes e substituirá outros dos seus 35 ministros (mesmo criando novas secretarias neste ministério hiperinflado) por outros para ampliar sua base de bajulação no Congresso Nacional, numa prática tradicional do Brasil coronelista, fisiológico.


Aliviando a pressão

Mesmo diante de prioridades invertidas há alguma expectativa de ligeira melhora na gestão do Brasil em 2005, dando um primeiro passo para consolidar a reeleição de Lula em 2006.

As prioridades seguem as mesmas: em primeiro lugar os números, pagam-se os juros de uma dívida cada vez maior e mais impagável; a seguir os gastos com propaganda, para que o brasileiro siga este mendigo sorridente e feliz que deixa todos os turistas internacionais estarrecidos – de fato, apesar de todo o desgoverno, o melhor do Brasil é o brasileiro... Em terceiro lugar os gastos com o suborno a parlamentares; em quarto, os gastos voltados a levar o Brasil a fazer parte do Conselho de Segurança da ONU (doação de aviões para países africanos, envio de tropas ao Haiti, perdão à dívida de nações conosco comprometidas, aquisição de um avião moderno, etc.)

Com a sobra de todos os gastos com as prioridades que Lula e o governo petista se auto-impuseram, sobra pouquíssimo para manobras eleitoreiras em torno do social. Tanto que a concessão de empréstimos a aposentados foram apresentados acintosamente como realização de governo... Diante do arrocho generalizado o governo acena com um pequeno reajuste ao salário mínimo, a vigir a partir de maio e aliviar um pouco a pressão.

A soma de pequeninas concessões, agressões à democracia e ao sistema republicano e muita propaganda provavelmente eleve ainda mais o nível de aceitação e avaliação do governo, possibilitando sua recondução por mais 4 anos...


Feliz 2005

É difícil até imaginar um 2005 pior que 2004, as coisas devem melhorar, ainda que somente um pouco...

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 30 de dezembro de 2004






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