Nem Greenhalgh, nem Virgílio; deu Severino na Câmara

Deputado federal de perfil fisiológico e conservador – foi o grande responsável pela expulsão do padre Vítor Miracapillo do Brasil em 1980. O padre havia se recusado a rezar uma missa para a Ditadura Militar 7 de setembro daquele ano – Severino Cavalcanti foi eleito presidente da Câmara dos Deputados com 300 votos, contra os 195 dados ao candidato do governo, Luiz Eduardo Greenhalgh.

Membro do Partido (dito) Progressista em Pernambuco, Partido do ex-governador Paulo Maluf, deputado em terceiro mandato consecutivo, sempre apresentava a sua candidatura à presidência da Câmara, amealhava um número expressivo de votos fisiológicos e assim conseguia fazer-se presente em qualquer dos outros cargos da Mesa Diretora da Casa, de que é membro há 8 anos.

Quando, na segunda-feira passada, subiu à tribuna e todo o mundo ouviu a deputada Zulaiê Cobra puxar um coro de vigorosos aplausos já se percebia que ali tinha coisa... Todos considerávamos que o candidato preferencial da oposição ao governo era o José Carlos Aleluia, do PFL (BA), que somente obteve 53 votos em primeiro turno. Lembro que somente o PFL tem 62 deputados. O PSDB tem 53. E o PT conta com 91. Com o troca-troca de Partidos da madrugada de segunda para terça-feira passada, o PMDB passa a contar com a maior bancada da Câmara: 92 deputados.

A articulação, sempre nos bastidores e, neste caso, com a honrosa exceção de Ricardo Noblat, invisível a toda a grande mídia – salvou-nos, repito, o Blog de Noblat  – se formava: Entre os cinco candidatos, estava difícil para a oposição escolher entre dois petistas e se via pouca chance em Aleluia. O nome de Virgílio incorporava a bofetada que o Congresso desejava dar no Planalto. Era preciso dar um “basta!” na mescla de arrogância e prepotência com que o governo vinha tratando o Congresso Nacional.

Dois petistas

O mineiro Virgílio Guimarães, em nome de uma “despaulistização” dos cargos oficiais ocupados pelo PT, lançou sua candidatura à revelia da decisão do partido, em torno do paulista Greenhalgh. Aleluia corria pela Oposição, lançando candidatura independente a exemplo do que o PT sempre fez. Severino sempre lançava a sua candidatura mesmo. E Jair Bolsonaro (PFL-RJ) utilizou-se de sua prerrogativa para lançar uma espécie de anticandidatura, “de protesto”, segundo suas próprias palavras.

Buscando culpados

Os líderes do governo e do PT, após a derrota fragorosa na Câmara, tentam desvincular o governo do Partido (dito) dos Trabalhadores: “não foi uma derrota do governo, foi uma derrota do Partido”, dizem em coro. Não cola. A menos que fôssemos oligofrênicos amnésicos. Então incumbem 11 ministros de amealhar votos para Greenhalgh, prometem e mobilizam um montante pavoroso de recursos – do governo, ou seja, do contribuinte, você e eu – mas diante da derrota saltam fora? Desculpa, desta vez não vai dar: foi uma derrota do governo Lula/FMI, sim! O grande Janio de Freitas tributa a derrota a José Genoino, que impôs o antipático Greenhalgh em substituição a Virgílio Guimarães. Vendo daqui, faço minhas as palavras de Fernando Rodrigues: “o grande culpado pela derrota do governo [Lula/FMI] tem nome, sobrenome e endereço fixo: chama-se Luís Inácio Lula da Silva e dá expediente no Palácio do Planalto.”

Reforma Ministerial

Adiada sine die , a reforma ministerial que Lula desejava meramente cosmética; agora ficou tudo embolado: os partidos que formam a base de sustentação, traíram o governo, principalmente o PP, o PL, o PMDB e o PTB. Com que partidos e políticos o governo pode efetivamente contar para viabilizar e aprofundar sua política econômica rapinante? Quem votará com o governo o que os EUA e o FMI determinam, como a privatização do Banco Central do Brasil e a supressão de direitos trabalhistas? O PP ia ganhar um ministério. Será que ainda vai? O PTB ia ganhar a presidência de uma estatal. Após trair o governo, como é que fica? E a articulação política, dividida entre Aldo Rebelo e José Dirceu, será que muda diante de tanta inépcia?


Observações para jornalistas

_ É sempre menos complicado analisar o que acontece no Senado Federal do que o que acontece na Câmara.

_ “Severino” é muito mais fácil de falar e escrever do que “Greenhalgh”

_ 300 votaram em Severino. 195 no candidato de Lula. Quantos (e quais) são mesmo os picaretas?

_ A Câmara agora é presidida por um (ex?)aliado de Paulo Maluf e o Senado por um (ex?)aliado de Collor de Mello.

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 17/02/2005






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