Preferências musicais, grupos terroristas e eleições no Congresso

Preferências musicais

Semana passada mencionei que, em janeiro passado, na tradicional cerimônia de troca da bandeira nacional, que ocorre no primeiro domingo de todos os meses, em frente ao Palácio do Planalto, na praça dos Três Poderes, a Banda da Polícia do Exército tocou “Deixa a Vida me Levar”, do Zeca Pagodinho.

Revoltante como seja, ainda acredito que devamos dar Graças a Deus porque não estão tocando diretamente o hino dos EUA. Desde a Década Perdida, passando pela Era Maldita, o governo abriu mão da soberania nacional. Agora, na Era da Traição, o entreguismo se aprofundou. A grande voz de oposição foi para a situação e nela se transformou.

Símbolos, mitos e ritos fazem referência a coisas reais. A trilha sonora da Era da Traição começa a se esboçar: Zeca Pagodinho é guindado à posição outrora ocupada por Evaristo da Veiga e Olavo Bilac. Cada tempo tem os heróis que merece.

Comparando

1822. Eram tempos heróicos, o que ocorreu foi mais uma declaração de emancipação política do que propriamente uma “independência” como se propalava, uma vez que, mesmo desvinculando-se diretamente da coroa portuguesa o Brasil já nascia vinculando-se ao capital estrangeiro, à época, da Inglaterra. Ainda assim, D. Pedro I oficializou o Hino da Independência, cantado por tantos em tantos momentos heróicos de nossa vida política. Ressalto enfaticamente ser a canção nacional preferida por dez entre dez autênticos revolucionários brasileiros. Durante a Ditadura, por exemplo, os prisioneiros políticos o cantavam com freqüência, quiçá ansiando despertar algo daquele sentimento adormecido nos militares.

O Hino, letra de Evaristo da Veiga e música de D. Pedro I, diz entre outras coisas impactantes que todos aprendemos nos bancos escolares (pelo menos a minha geração ainda aprendia...): “Já podeis da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil. Já raiou a Liberdade no horizonte do Brasil!” Canção em ritmo marcial, como convém aos hinos, conclama na audiência um sentimento cívico ímpar: amor à pátria e ódio àqueles que nos tentavam escravizar.

Naqueles tempos heróicos se bradava em tom sempre marcial na música primorosa de D. Pedro: “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”. Nestes tempos medíocres se canta suavemente, em ritmo de samba-canção: “Se não tenho tudo que preciso, com o que tenho, vivo. De mansinho, lá vou eu.”

Tínhamos de mostrar aos portugueses nossa verve revolucionária, que se eles quisessem meter as patas aqui de novo teriam de se haver com os nossos militares: “Não temais ímpias falanges / Que apresentam face hostil / Vossos peitos, vossos braços, / São muralhas do Brasil.” Eram tempos heróicos. Nos tempos medíocres que vivemos, baixamos a guarda e ciciando: “Só posso levantar as mãos pro céu / Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu.”

Lembra-me uma grande Amiga (lendo estas linhas se reconhecerá rapidamente) que o Hino Nacional Brasileiro, letra de Osório Duque Estrada, música de Francisco Manoel da Silva, conclama em tom solene: “Verás que um filho teu não foge à luta!” No hinário dos tempos medíocres, diz lá o poeta mansa e calmamente: “Se a coisa não sai do jeito que eu quero, também não me desespero. O negócio é deixar rolar.”

Quando a Bandeira Nacional se encontrava no mastro, víamos-nos nela retratados e reproduzíamos o poema de Olavo Bilac musicado por Francisco Braga: “Recebe o afeto que se encerra / Em nosso peito varonil / Querido símbolo da terra / Da amada terra do Brasil.” Nestes tempos medíocres nossos jovens estão sendo treinados para trinar: “Deixa a vida me levar (vida leva eu)”.

Dos símbolos

Há muito enfatizo minha predileção pelo estudo e respeito aos símbolos, sinais, signos, mitos e ritos. Quando Collor de Mello conclamou a Nação a sair às ruas vestido de verde e amarelo para defendê-lo não foi surpresa que todos saíssem às ruas mesmo, mas com as caras pintadas e vestidos de preto! O cara desrespeitou nossas cores nacionais – as cores que D. Pedro I ostentava orgulhoso em 1822 – e pagou caro por isso.

Não foi isso que o derrubou, claro está. Mas é inegável que ele criou um mote e, virando do avesso a proposta presidencial, o povo encontrou um ponto de união entre as muitas insatisfações aos males que ele trouxe à esquerda e à direita.

Lula passa a maior parte de seu tempo proferindo metáforas que transpõem o significado original de muitos de nossos símbolos. Quando disse, por exemplo, que “o agronegócio brasileiro só está no primeiro mundo, que o primeiro mundo foi o melhor que já inventaram; se já tivessem inventado outro, era nesse outro que estaríamos!”.

Lula herdou uma estrutura agrária que tem seu início no PAEG – Plano de Ação Econômica do Governo – dos tempos da ditadura e aprofunda-se em Collor e FHC. O resultado que ele situa além deste mundo não se deve aos empréstimos a juros bancários da Era da Traição. E para que se mantenha como está, seria necessário alterar completamente a política para o setor! Se outrora se fazia investimentos pesados em agricultura – os cofres públicos abasteciam generosamente os grandes produtores rurais – hoje o que se apresentam são empréstimos a juros bancários. Juros que o governo faz absoluta questão de manter elevados (veja logo abaixo) desviando a riqueza nacional da produção para a especulação.

Tocar samba-canção em solenidades marciais é somente o resultado lógico do orgulho presidencial por não ser nem gostar de intelectuais. A escolha do repertório está diretamente relacionada com o sentimento de que a pátria vive hoje outra situação, diferente daquela vivida em 1822. Se outrora precisávamos afirmar nossa independência, hoje temos de nos adaptar a uma situação acreditada como imutável, daí o hino à mediocridade inflama a imaginação presidencial: “Se a coisa não sai do jeito que eu quero / Também não me desespero / O negócio é deixar rolar.”

A apatia dos brasileiros diante de algo de um samba-canção vulgar no hasteamento do Pavilhão da Pátria sinaliza em que direção? O presidente está coberto de razão e nós preferimos a mansidão (“deixa como está, fica quieto e não faz marola, deixa rolar...”)? Isso explicaria o silêncio de quase toda a imprensa em torno de algo tão tremendamente chocante.


Grupo terrorista ataca brasileiros

Quando votamos em 2002 nem de longe imaginávamos que a gerência do governo seria imediatamente entregue ao representante brasileiro do FMI que, de pronto, criaria um grupo terrorista e este comandaria toda a economia, limitando a soberania nacional e, assim, era completamente desprezada a decisão das urnas naquele ano.

O grupo terrorista chamado COPOM, em mais uma de suas reuniões contra a esperança, a liberdade e a felicidade dos brasileiros, decidiu que a economia está muito aquecida, que estamos gastando muito dinheiro e, portanto, têm de aumentar ainda mais a taxa de juros, já extravagante. Decidiram ainda tornar mais agressiva a campanha pela privatização do Banco Central do Brasil que teria de tomar estas medidas por “falta de autoridade”.

No começo eu considerava muito estranho um criminoso internacional como Henrique Meirelles falar em tantas desgraças para o povo brasileiro por um lado e, por outro, viver rindo tanto. Agora fica mais fácil entender: por baixo de seu discurso de austeridade, sobriedade e seriedade, observa-se a alegria, a enorme felicidade do agente responsável (?) que, em nome da defesa da economia brasileira acaba de, desferindo violento ataque contra o patrimônio público, ampliar seu enriquecimento pessoal e de todos os amigos do alheio que atuam no mercado de capitais. Não há nada oculto: atuam às claras nos roubando legalmente, com suas reuniões e decisões que lhes favorecem e ficam mesmo rindo às bandeiras despregadas de todos nós, os lesados.

 Lula tem de aumentar impostos para compensar o aumento da dívida decretado pelo grupo terrorista que governa o governo.


Severinos na Câmara

Severino sempre se lança candidato com a plataforma de melhorar a vida – já bastante confortável – dos parlamentares, não necessariamente de todos os brasileiros. E sempre votou com o governo nas medidas que eram interessantes a Severino e ao governo.

Severino e Lula são conterrâneos, ambos nitidamente conservadores, ambos especialistas em maracutaias e ambos “filhotes da ditadura”. Acrescente-se à equação que PT e o PP fazem parte da “base de sustentação do governo”. O nível do diálogo está dado.

Teoricamente, vivemos numa democracia representativa (quase digito “relativa”) em que escolhemos os parlamentares para nos representar politicamente. Na prática, vale por lá o cambalacho mesmo, vale tudo, é a esbórnia assumida, como claramente colocou Clóvis Rossi. Para nós muda pouca coisa, talvez nada. Continuamos perdendo feio, uma vez que há tempos o Congresso Nacional foi todo para a direita, acompanhando o governo ou contra ele. Exceção, talvez somente aos três do PSOL.

Para o governo a perda é bem grande: por baixo do discurso oficial, que informa da autonomia e da relação institucional entre os poderes, leia-se que a relação com o Congresso será ainda mais fisiológica. Estima-se que as negociações entre o Planalto e o Congresso tenham de ser mais bem articuladas e o que for acordado tenha de ser cumprido num prazo bem mais curto, com maior agilidade. Os deputados, que tomaram vários beiços e “passa-moleques” do Planalto, ao que parece, estão ficando mais ariscos. Mas peraí: eles foram eleitos para defender nossos interesses ou os deles afinal?


Baixo Clero

Foi só uma expressão criada para compreendermos todos sobre o que estávamos falando. Podemos abrir mão da expressão – já que incomoda tanto – mas vamos precisar criar uma outra para que possamos nos referir aos políticos que chegam a Brasília com mentalidade provinciana e lutam somente por seus interesses corporativos, incapazes de uma visão mais abrangente do Brasil, seu povo e seu destino.

Uma Câmara dos Deputados dirigida e controlada por este grupo pode mudar a face do encaminhamento político brasileiro, fazendo com que volte a um passado que julgávamos superado. A falta de escrúpulos que caracteriza os atuais ocupantes do Planalto aponta numa direção que nos deixa até envergonhados demais para aventar alguma suposição...

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 17/02/2005

 

Compare:

Hino Nacional Brasileiro

Música: Francisco Manoel da Silva

Letra: Osório Duque Estrada

I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas

De um povo heróico o brado retumbante,

E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,

Brilhou no céu da Pátria nesse instante

Se o penhor dessa igualdade

Conseguimos conquistar com braço forte,

Em teu seio, ó liberdade,

Desafia o nosso peito a própria morte

Ó Pátria amada,

Idolatrada,

Salve! Salve!

Brasil, de um sonho intenso, um raio vívido

De amor e de esperança à terra desce,

Se em teu formoso céu, risonho e límpido,

A imagem do Cruzeiro resplandece

Gigante pela própria natureza,

És belo, és forte, impávido colosso,

E em teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada,

Entre outras mil és tu, Brasil,

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,

Pátria amada, Brasil!

II

Deitado eternamente em berço esplêndido,

Ao som do mar e à luz do céu profundo,

Fulguras, ó Brasil, florão da América

Iluminado ao sol do Novo Mundo

Do que a terra mais garrida

Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida, no teu seio, mais amores

Ó Pátria amada,

Idolatrada,

Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo

O lábaro que ostentas estrelado,

E diga o verde-louro desta flâmula

- Paz no futuro e glória no passado

Mas se ergues da justiça a clava forte,

Verás que um filho teu não foge à luta,

Nem teme, quem te adora, a própria morte

Terra adorada,

Entre outras mil és tu, Brasil,

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,

Pátria amada, Brasil!

Hino da Independência

Musica: D. Pedro I

Letra: Evaristo da Veiga

Já podeis da Pátria filhos

Ver contente a mãe gentil

Já raiou a liberdade

No horizonte do Brasil

Já raiou a liberdade

Já raiou a liberdade

No horizonte do Brasil

Brava gente, brasileira

Longe vá temor servil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Os grilhões que nos forjava

Da perfídia astuto ardil

Houve mão mais poderosa

Zombou deles o Brasil

Houve mão mais poderosa

Houve mão mais poderosa

Zombou deles o Brasil

Brava gente, brasileira

Longe vá temor servil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Não temais ímpias falanges

Que apresentam face hostil

Vossos peitos, vossos braços,

São muralhas do Brasil

Vossos peitos, vossos braços,

Vossos peitos, vossos braços,

São muralhas do Brasil

Brava gente, brasileira

Longe vá temor servil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Parabéns, ó Brasileiros!

Já com garbo juvenil

Do universo entre as nações

Resplandece a do Brasil

Do universo entre as nações

Do universo entre as nações

Resplandece a do Brasil

Brava gente, brasileira

Longe vá temor servil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

Hino da Bandeira Nacional

Música: Francisco Braga

Letra: Olavo Bilac

Salve lindo pendão da esperança

Salve símbolo augusto da paz!

Tua nobre presença à lembrança

A grandeza da Pátria nos traz

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito varonil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

Em teu seio formoso retratas

Este céu de puríssimo azul,

A verdura sem par destas matas

E o esplendor do Cruzeiro do Sul

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito varonil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

Contemplando o teu vulto sagrado,

Compreendemos o nosso dever;

E o Brasil, pôr seus filhos amado,

Poderoso e feliz há de ser

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito varonil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

Sobre a imensa nação brasileira,

Nos momentos de festa ou de dor,

Paira sempre sagrada bandeira,

Pavilhão de justiça e do amor

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito varonil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

Deixa a vida me levar (vida leva eu)

Letra e música: Zeca Pagodinho

Eu já passei por quase tudo nessa vida

Em matéria de guarida espero ainda minha vez

Confesso que sou de origem pobre

Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez

E deixa a vida me levar (vida leva eu)

Deixa a vida me levar (vida leva eu)

Deixa a vida me levar (vida leva eu)

Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu

Só posso levantar as mãos pro céu

Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu

Se não tenho tudo que preciso

Com o que tenho, vivo

De mansinho, lá vou eu

Se a coisa não sai do jeito que eu quero

Também não me desespero

O negócio é deixar rolar

E aos trancos e barrancos, lá vou eu

E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu

E deixa a vida me levar (vida leva eu)

Deixa a vida me levar (vida leva eu)

Deixa a vida me levar (vida leva eu)






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