Amazônia – uma questão em aberto

Devido à grande repercussão do assassinato da freira Dorothy Stang, 73 anos, em Anapu (PA) o governo Lula enviou tropas do Exército e Polícia Federal para o local, além de criar reservas ambientais que jamais sairão do papel, pois não se pensou sequer em criar uma infra-estrutura mínima para preservá-las.

Como disse D. Orani João Tempesta, Arcebispo Metropolitano de Belém, em seu brilhante artigo “Eles não têm razão”, publicado na Revista Eletrônica EntreRedes, (www.entreredes.org.br): “Quando o Estado fica ausente das questões sociais e deixa o cidadão à mercê da violência estamos caminhando para situações insustentáveis. E aqui não bastam discursos demagógicos e idéias de soluções posteriores: aqui constatamos a falência dos órgãos públicos e o cidadão brasileiro exposto a toda espécie de violência.”

O governo anunciou o envio de uma tropa de 2.000 militares, só foram enviados 140 e o Exército se queixa de não ter dinheiro para manter sequer este pequeno contingente por muito tempo sem recursos extras. Na terça-feira passada, 100 soldados foram deslocados “para outras missões”, ficando a missão Anapu reduzida a 40 militares. Segundo  dados do Exército Brasileiro, seriam necessários pelo menos R$ 28 milhões para viabilizar toda a operação inicialmente prevista. Contudo, como o governo tem por prioridade enviar R$ 300 milhões por dia – o preço de dois Aerolulas – para o pagamento de juros da dívida crescente, não há recursos para os militares e estes estão por lá desbussolados, ainda incertos quanto ao que fazer. Discursos grandiloqüentes à parte tudo volta exatamente como estava antes...

A Polícia Federal, também sem recursos, quando no Pará, se utiliza da precária infra-estrutura do governo do Estado para seus transportes e tudo de que precisa, sem o menor apoio do governo federal, cujas prioridades, como digo acima, são outras.

Como resultado, até agora só foram presos os executores da freira, não se cogita mais de capturar os mandantes e o governo vê, com mal disfarçada satisfação, o assunto ir desaparecendo da mídia, dando-lhe fôlego de sobra para as outras violências que sua gestão conjunta com o FMI determina que pratique contra o povo brasileiro, preparando a inserção do país na ALCA na condição de colônia. Cogita-se se a suspeita que paira sobre o prefeito de Anapu, aliado do governo federal e adversário político da freira morta, Luiz dos Reis Carvalho, teria sido o fator determinante de a Polícia Federal declarar, poucos dias após o início do inquérito, o caso resolvido.

De vez em quando, seja nos EUA, seja na Europa, alguém surge com a “brilhante” idéia de “Internacionalizar” a Amazônia. Dia 24 de fevereiro passado, o Sr. Pascal Lamy, ex-comissário de comércio da União Européia e candidato a diretor-geral da Organização Mundial de Comércio, voltou a propor a “Internacionalização da Amazônia”. A este propósito lembrei-me de um discurso proferido no ano 2000 pelo hoje Senador Cristovam Buarque em congresso nos EUA. Quando foi interpelado sobre o assunto, solicitou-se a resposta “de um humanista, não de um brasileiro”.

Enviei e-mail ao Senador, que teve a bondade de me responder, confirmar a autoria do texto e autorizar-me a divulgá-lo. Por sua beleza poética e precisão racional passo a reproduzir

 

Amazônia do Brasil

Durante debate em um congresso de que participava nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal e ex-Ministro da Educação, Senador Cristovam Buarque, foi questionado sobre o que pensava acerca da internacionalização da Amazônia.

O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.

Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:

“De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.

Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade.

Se a Amazônia, sob uma óptica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.

O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro.

Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado.

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um País.

Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais.  Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo.

O Louvre não deve pertencer apenas à França.

Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.

Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um País.

Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre.

Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA.

Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada.

Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade.

Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA.

Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos a presidência dos EUA tem defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de COMER e de ir a escola.

Internacionalizemos as Crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

Ainda mais do que merece a Amazônia.

Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.

Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa.

Só nossa.”

Cristovam Buarque

www.cristovam.com.br

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 10/03/2005 






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