Semana Morna

 

Em função da morte do papa João Paulo II, os ânimos estiveram mais serenos na política e pouco se falou sobre as questões de fundo que agravam o panorama nacional. Os olhares eletrônicos e escritos dos brasileiros estiveram voltados para a Praça São Pedro.

Não vou aqui repetir meus sentimentos pelo papa morto. Guardo-os para mim e tento colocar em prática o que Dom Cláudio Hummes sugeriu quando a caminho do Vaticano: “rezem para que o Espírito Santo ilumine o Colégio de Cardeais na escolha do sucessor”.


Viagens em momentos cruciais

Mantendo um padrão de comportamento bastante exótico, o Presidente da República agendou uma viagem à África precisamente para o fim de semana em que uma reunião do PT no Rio de Janeiro tem enorme potencial explosivo, fragmentador: a “Articulação”, grupo que já era majoritário, agora hiperinflado com novas afiliações, inclusive a partir dos novos cargos criados no governo, buscará impor ao partido um documento aprovando a política econômica de Meirelles e Palocci que, cumpre lembrar, estão hoje à direita do FMI.

Não deixa de ser um momento interessante para que alguns insatisfeitos, mas ainda dentro do partido, como o grupo de parlamentares “rebeldes” possa se posicionar. “Fecham” com a direita do FMI representada pela política econômica de Meirelles e Palocci ou procuram um novo partido? Ou, como vêm fazendo até hoje, nem uma coisa, nem outra, muito pelo contrário: encontram uma forma híbrida de combinação entre a aceitação das determinações partidárias, acatando-as na prática, mantendo a liberdade de crítica no discurso para preservar, diante de seu eleitorado, sua confortável posição no governo sem parecer ser lá muito a favor do que o governo anda fazendo.

Em outra ocasião Lula deixou para o Vice-presidente da República assinar uma decisão antipática que ele havia tomado – aparentemente sem combinar com Alencar, que chiou muito! Quando houve a eleição para a Presidência da Câmara e seu partido apresentou dois candidatos, o governo e o partido foram duplamente derrotados pela eleição de Severino e Lula viajando. Novamente na votação da MP 232: incumbe diretamente Palocci, Dirceu e Aldo Rebelo de fazerem tudo até o limite da irresponsabilidade para aprovar a medida a qualquer custo, mesmo diante da grita em contrário de toda a sociedade refletida no Congresso Nacional e Lula, voltando de viagem, desautoriza seus ministros e revoga a decisão tomada. De decisão desastrada em decisão desastrada um padrão de comportamento: no momento crítico, passar a responsabilidade a outros, pegar o Aerolula e buscar o sucesso fácil na política externa prestando obséquios a muitos com dinheiro público. Ao voltar, tentar aparecer como “salvador da pátria”. Será que cola?


Ministros complicados

Há mais de um ano estourou o escândalo: José Dirceu levou Waldomiro “Bingo” Diniz para trabalhar com ele. Até hoje a situação de Dirceu e Waldomiro e seu envolvimento com contraventores não está convincentemente explicada.

Pouco depois, novas denúncias dão conta de que Henrique Meirelles, candidato a proprietário do Banco Central do Brasil, que Lula quer privatizar, teria cometido uma série de irregularidades – suspeita-se mesmo de crimes contra o erário, crime fiscal e crime eleitoral. Para evitar dissabores, Lula decidiu-se a promovê-lo a Ministro de Estado e, assim, conseguir-lhe foro especial. Neste momento o Procurador Geral da República, Cláudio Fontelles, entrou com uma representação contra ele junto ao Supremo Tribunal Federal. O cerco se fecha.

A montanha que pariu um rato vê-se na iminente contingência de ter de reabsorver pelo menos meio rato: somente nomeando Paulo Bernardo, da equipe de Palocci para o cargo vago de Ministro do Planejamento (que, no Estado Mínimo Brasileiro reduziu suas funções meramente ao planejamento de cortes no orçamento) e trocar Amir Lando por Romero Jucá no Ministério da Previdência, Lula dava como concluída uma profunda reforma ministerial anunciada desde outubro do ano passado.

A Folha de S. Paulo levantou que Jucá teria fraudado justamente a Previdência Social ao apresentar como garantia de um empréstimo fazendas que não existem. Segundo a lógica excepcional do ministro quem errou foi o Banco da Amazônia (BASA) ao aceitar como garantia fazendas que não existem, exceto no papel. É verdade. Mas só meia verdade. E a outra parte, o cara que fraudou o banco e, assim, o erário público, não conta?


A caminho da reeleição

E é assim, governando para os ricos e discursando para os pobres, cercado de corruptos e incompetentes, que Lula se encaminha celeremente – hoje franco favorito pela maior parte do eleitorado – na direção da reeleição em 2006. Pobre Brasil...

 

Lázaro Curvêlo Chaves
08/03/2005

 




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