“Politicamente Correto”

 

Alguns jovens “entendidos” na Secretaria Especial dos Direitos Humanos, ao invés de buscar enfrentar as questões graves atinentes à referida Secretaria, talvez por sequer enxergar problemas relativos a Direitos Humanos no Brasil, decidiram-se a utilizar seu excesso de tempo livre na elaboração de uma cartilha arrolando expressões consideradas pejorativas, no que ficou conhecido como “Cartilha do Politicamente Correto”.

Que uma Secretaria Especial que deveria devotar-se a cuidar dos Direitos Humanos se imiscua na seara da Academia Brasileira de Letras – como bem apontou João Ubaldo Ribeiro – só pode mesmo ser barbeiragem, palhaçada ou falta do que fazer.

Há tempos me preocupo com a maneira peculiar de o governo por e dispor as palavras da nossa língua portuguesa deslocando-lhe o significado, fazendo frequentemente com que uma palavra seja adotada na acepção oposta à tradicionalmente tratada. Caso da expressão “reforma”, que era aplicável a aprimoramentos e hoje se usa à farta para significar degenerações ou pioras. A “reforma” sindical, sob a desculpa de ultrapassar a “ Carta del Lavoro ” de Mussolini, dá largos passos atrás nos direitos de os trabalhadores se sindicalizarem. A “reforma” trabalhista é pensada para suprimir vantagens como o 13º salário, as férias acrescidas de 1/3 e o FGTS.

Os traços autoritários deste governo sucedem-se um ao outro às catadupas! Ora tentam silenciar a imprensa através do – por enquanto – contido Conselho Federal de Jornalismo, ora tentam imiscuir-se no conteúdo de romances, filmes, novelas e mesmo páginas na Internet no ainda ameaçador projeto da ANCINAV. Agora criam uma cartilha com 96 palavras, expressões ou piadas consideradas pejorativas, dentre as quais “beata”, “comunista”, “funcionário público”, “preto” e “anão”, entre outras, num delírio totalitário e insano.

O comunismo ficará proibido ou somente o adjetivo? E por que diabos justo agora que o PC do B faz parte da base governista (embora de “comunista” só guarde mesmo o nome...)? Ficam proibidos os anões de existir? Como devemos passar a nos referir a eles? “Pessoas de baixa, muito baixa, baixíssima estatura”? E as senhoras que se orgulham em seguir procissões e rezar terços em conjunto e freqüentar missas com regularidade acaso se ofendem se chamadas de “beatas”? A literatura brasileira é riquíssima em personagens que até se orgulham em ostentar o epíteto de “beato”!

Alguém ouviu falar de algum palhaço que processasse um Presidente da República – sociólogo ou torneiro mecânico – por fazer palhaçadas e, assim, denegrisse a sua honrada profissão circense?

Estão querendo reinventar o idioma português expurgando termos consagrados e dificultando o trabalho dos escritores no uso de metáforas? Que tempo maluco, meu Deus!

E como é que vamos xingar os juízes de futebol quando fizerem alguma merda? “Filhos de senhoras que comercializam o próprio corpo?” Será que vão processar o Chico Buarque que, na música “Meu Caro Amigo” informa a um brasileiro exilado que “a coisa aqui está preta”?

Será que pretendem criar mais um bem remunerado grupo de funcionários – na novilíngua petista deve-se falar “servidor”, pois segundo eles “funcionário” tem conotação pejorativa, por sinal – servidores, enfim, que se encarregariam de revisar todas as obras escritas no país para verificar se não passa algo de condenável? Mais uma tentativa de implantar a censura prévia por aqui?


Banindo a pilhéria

Um dos argumentos apresentados pelos “entendidos” da tal Secretaria é o fato de fazermos piadas, pilhérias e anedotas de cunho preconceituoso ou discriminatório que passam por normais.

Esses jumentos não conseguem compreender que é justamente no diferente que está o engraçado? Essas antas paquidérmicas não entendem nada de gracejos e nos querem sérios 24h por dia?

Retiremos do nosso cotidiano as piadas de loucos, de veados, de anões, de sogras e o que sobra? Um povo sisudo, gente cautelosa para falar seja lá o que for com medo de ser “politicamente incorreto”? Façam-me o favor, senhores, vão arrumar o que fazer e deixem os escritores e humoristas em paz!


Homossexualismo e celibato causam problemas de saúde

Neste ponto a cartilha do “Politicamente Correto” ultrapassa os limites do vernáculo e se introduz – com tanta ou maior incompetência – no campo da medicina!

Já escrevi sobre isso neste espaço citando as pesquisas de José Reis sobre feromônios. Em síntese, na diferenciação de gênero todos os animais geram substâncias necessárias ao sexo oposto. No caso de pequenos artrópodes se comprovou que o feromônio do sexo oposto é vital à própria existência do bichinho, ou seja, na ausência da troca de feromônios chegam mesmo à morte. Nos animais superiores (seres humanos inclusive) já está comprovada a existência de feromônios, com finalidade similar mas ainda em estudos e evidentemente sem a mesma gravidade daquela que ocorre nos pequeninos artrópodes. Do ponto de vista da qualidade de vida, contudo, o homossexualismo, tanto quanto o celibato, é profundamente danoso e causa achaques e desvios notórios. Comparem-se seres humanos que mantêm uma vida sexual ativa e saudável a outras que se desviam de alguma forma (homossexualismo ou celibato) e se perceberá as perturbações físicas e mentais que estas práticas causam. Afirmá-lo claramente, com todas as letras, como José Reis o fez e eu repito, é bastante complexo numa sociedade enlouquecida como a nossa, em que homossexuais compõem até agremiações políticas e fazem lobbies de pressão nos parlamentos do mundo... A cartilha dos desocupados recomenda o uso de expressões como “entendidos” ou “homossexualidade”, para distanciar o fenômeno da patologia e dos movimentos políticos – embora estejam claramente inseridos em ambos.


Mudar o nome de uma doença ou pilhéria em nada a transforma

Hoje estes imbecis recomendam o uso da expressão “negro” para referir-se a seres humanos de pele escura. Devem-se evitar expressões como “preto” ou “preta”. Entendem que hoje, “preto” tem conotação pejorativa. Numa papelaria teremos de comprar lápis negro? Ou em casas de tecido, para vestirmos luto, devemos pedir panos na cor negra?

Em outros tempos no Brasil o termo “negro” é que carregava conotação pejorativa – em vários países do mundo ainda é assim, aliás. Eu continuo considerando que o problema não esteja nas palavras ou expressões em si, mas na atitude mental de quem a emprega ou na forma como a emprega. Numa coisa concordamos plenamente: preconceito dito “racial” é mesmo injustificável.

O que define espécie animal ou raça é a interfecundidade. Se um caucasiano e uma japonesa são capazes de gerar descendência fértil, trata-se da mesma espécie animal ou mesma raça. O mesmo se aplica a um africano e uma índia. Em síntese: só há uma raça humana no mundo, sendo as diferenciações superficiais (cor de pele, formato de olhos e cabelos – ou ausência de cabelo, como no meu caso –, etc.) meras adaptações a circunstâncias climáticas.

Chamar homossexuais de “entendidos” – e a cartilha vai mais longe recomendando a expressão anglófona “gay” – não vai curá-los!

Se retirarmos de nosso cotidiano a expressão “farinha do mesmo saco”, havemos de, cedo ou tarde, encontrar outra para significar a mesma coisa, mais do que “generalização apressada” é a constatação empírica de uma forma específica de se colocar no mundo. Por exemplo, o PT era um partido ético, de esquerda, que se pautava pela correção. Hoje, com outros partidos fisiológicos, virou mesmo “farinha do mesmo saco”.


Chega de tanta burrice e incompetência!

Governem, senhores! Cuidem dos Direitos Humanos. Se faltar o que fazer na sua Secretaria, vão tapar buracos nas estradas brasileiras, que estão uma hecatombe! Deixem a língua portuguesa aos cuidados da Academia Brasileira de Letras.

Brutalmente indignado com tanta palhaçada.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 05/05/2005






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