Diálogo de surdos

 

Política econômica

A finalidade da política de metas inflacionárias controladas pelo aumento nas taxas de juros é uma só: o desaquecimento da economia.

Paradoxalmente, as autoridades políticas e econômicas ligadas ao Planalto esmeram-se hipnoticamente em informar – nas próprias atas do Grupo Terrorista Copom – que “o aumento nas taxas de inflação não terá impacto no crescimento econômico”. Repito aqui Clóvis Rossi que, na Folha de S. Paulo de 2 de junho passado termina o seu artigo brilhante dizendo que, diante de um crescimento ridículo de menos de 0,3%, “... como é que fica? Vai-se mudar o COPOM ou é melhor demitir os números?”

O Grupo Terrorista já acena na direção de um novo aumento na taxa básica de juros porque “o risco de não se atingir a meta de inflação para este ano ainda persiste”. A taxa de juros deve chegar a 20%, atraindo especuladores internacionais aos quais pagamos com nosso sangue, suor e lágrimas os R$ 300 milhões diários e, como “recompensa” ou efeito colateral teremos a supervalorização do Real, com a redução artificial no valor do dólar. Especula-se que venha a deter-se em torno de R$ 2,30 nas próximas semanas.


Corrupção e defecções

Há dois fatores a analisar. O primeiro é que realmente, desde a ditadura militar se tem notícias de que a corrupção é grande nas altas esferas governamentais. A diferença é que durante a ditadura, falar sobre isso poderia resultar até mesmo em morte do denunciante enquanto hoje em dia tudo é narrado nas coberturas jornalísticas e televisivas.

O segundo fator a considerar é que, no governo Lula, a corrupção, que já era grande no governo anterior e com os mesmos aliados, atinge proporções epidêmicas em todas as esferas do poder público. O fato de o governo Lula demonstrar-se aterrorizado com a possibilidade de instalação de qualquer CPI depõe violentamente contra ele. Admitir que somente o governo fiscalize o próprio governo contraria o regime democrático mas vai mais longe, contraria o próprio conceito de regime republicano! Sem mencionar que é uma afronta à inteligência do respeitável público desta tragédia circense.

Incapaz de fazer o que quer que seja para modificar a organização política de sua base governista (caiu na já velha armadilha da fisiologia e compra de votos de parlamentares em que FHC havia caído), sem programa de governo algum exceto o “preservar-se no poder”, a cada eleição o distinto eleitorado troca as moscas mas a sujeira segue intocada.

Ao longo destes dois anos e cinco meses de governo, Lula já perdeu o apoio de praticamente todos os partidos minimamente comprometidos com alguma forma de ideologia clara: primeiro sofreu a defecção do PDT, com Leonel Brizola ainda em vida, a seguir do PPS (antigo PCB) e, mais recentemente, do PV. De seus aliados históricos ficaram somente (e mesmo assim com um número significativo de parlamentares proclamando-se “rebeldes”) o PC do B e o próprio PT, já devidamente expurgado dos quadros verdadeiramente sinceros e ideológicos que foram para o PSTU ou para o PSOL (fundado pelos expulsos do PT acusados de coerência ética).

Restou a fisiologia, o balcão de negócios, o toma-lá-dá-cá do PTB de Roberto Jefferson e do PP de Severino Cavalcanti.

O governo está podre e já vejo com ceticismo a possibilidade de reeleição de Lula. Mais ainda, as bancadas do Partido (dito) dos Trabalhadores na Câmara e no Senado sofrerão um decréscimo bem forte nas próximas eleições, pois por mais que a democracia representativa burguesa seja defeituosa, está ficando cada vez mais complicado para o eleitor ver-se retratado naqueles que elegeu. Evidentemente, com a caneta na mão e uma disposição surpreendente para a cooptação e gastos feéricos com propaganda, este quadro pode ser revertido. Se o eleitorado verá mais realidade na propaganda próspera que o governo apresenta e menos realidade em seu cotidiano de agonias e misérias é o que está em questão. A campanha política de 2006 já começou.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 02/06/2005






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