Lula Pollyana da Silva

 

Eleanor Porter (1868 – 1920) escreveu uma série de livros que podemos considerar precursores da moderna onda de “auto-ajuda” e que tem o seu ápice no best seller Pollyana, publicado em 1913 e que ganhou o mundo. A mocinha da história vivia feliz da vida, sempre otimista, sorridente e alto-astral, vendo um mundo inteiramente cor de rosa e ressaltando sempre e somente os aspectos positivos de tudo ao seu redor. Lembro-me de uma professora de português que decretou a leitura deste livro em minha infância e eu achava engraçadíssimo como é que podia uma menina ganhar de presente de aniversário um par de muletas e ficar feliz da vida porque não precisa usar muletas... O otimismo desbragado, ilimitado, beira o ridículo.

Tenho reservas públicas e notórias ao Epicurismo e a seus herdeiros contemporâneos vulgarizados ao nível mais chão, a auto-ajuda. Por definição, o epicurismo e a auto-ajuda constituem-se em formas de fuga ao universo interior de pessoas incompetentes, incapacitadas ou desinteressadas para a atuação no universo político.


Escolhendo conselheiros

Na história recente do Brasil pós-ditadura militar, vemos coisas muito curiosas: Collor de Mello tinha como conselheira espiritual uma vidente tão incompetente que sequer conseguiu preveni-lo da encrenca que se avizinhava. Acabou sendo o primeiro presidente brasileiro que renunciou por estar sob ameaça de impeachment por, entre outras coisas, improbidade administrativa. Nada disso a vidente conseguia vislumbrar...

Durante o governo FHC, de nefanda memória, pelo menos o nível intelectual subiu muito. Ele citava Norberto Bobbio, Max Weber, Raymond Aron e outros, dos quais também discordo, mas num patamar muito mais elevado do que aquele que me leva a discordar de Mãe Dinah.

E Lula? Adotou a auto-ajuda como filosofia de vida. Até aí, tudo bem. Pessoalmente considero este um tipo de literatura medíocre e mediocrizante. Para mim não serve. Se para ele serve, se o faz mais feliz e saudável, eu de fato não tenho absolutamente nada com isso. O problema mais cruel e doloroso reside em que Lula se transformou em prosélito da auto-ajuda, faz o que pode para levá-la a um transbordamento da vida privada – seu lócus único de atuação possível – e a transformar em política de governo. Aí não! Haja santa paciência! Nosso Presidente semi-alfabetizado considera todos os que repudiam esta filosofia medíocre e absurda “um bando de derrotistas” a ponto de mal esconder seu desejo de ver censuradas todas as notícias que tragam traços mínimos de verdade sobre os descaminhos da política e da economia em nosso país. Um pouco demais, não?


As Máximas

Aprendi com Gisálio Cerqueira Filho em “A Questão Social no Brasil” – Caso de Polícia ou Caso de Política – a buscar nas dobras do discurso dominante o que, inter-dito revela muito mais do que é dito na propaganda oficial de qualquer governo.

Algumas das máximas lulistas saem nas pérolas descoladas da realidade – claro, se o mote de seu governo fosse a realidade tal qual é, a fuga na direção da auto-ajuda sequer seria necessária! – giram em torno de “ninguém tem o direito de imaginar que nosso governo não vai dar certo”.

Essa última no Salão do Turismo em São Paulo então foi o fim da picada! Alguém convenceu o Presidente da República que o único fator a prejudicar o poder aquisitivo dos salários é a inflação e que, para contê-la, vale qualquer sacrifício. Assim, mantêm-se os salários congelados, as taxas de juros vão à estratosfera, o superávit primário idem e, mesmo contra a evidência nítida de que a elevação das taxas de juros e impostos estão jugulando e conduzindo a economia a uma paralisia, pois os próprios índices governamentais, embora sempre ufanistas, diminuem mês a mês, ele segue com seus óculos cor-de-rosa de Pollyana e confunde as coisas proferindo absurdidades como “quem torce contra o Brasil vai quebrar a cara”.

Não creio, sinceramente, que alguém acredite haver brasileiros torcendo contra o Brasil. O que ele quis dizer foi “quem torce contra o meu governo, torce contra o Brasil”. Mesmo que sejam poucas as pessoas que, por qualquer motivo, desejem que Lula quebre a cara como governante, sua incapacidade de vislumbrar o real ultrapassa as raias da patologia. O Presidente está sofrendo de um gravíssimo surto psicótico e deveria ser afastado pelo menos para tratamento de sua saúde mental.

Conto-me entre os mais de 50 milhões de brasileiros que, iludidos, votaram e torceram para que o governo Lula desse certo, até por acreditar em suas promessas: traria benefícios à classe trabalhadora, de onde é egresso e homem sertanejo, conhecedor ontológico de todos os problemas do sertanejo brasileiro. Quanta decepção! O cara escolheu virar as costas para o povo, renegar seu passado histórico de lutas heróicas e governar com a escória política deste país, além de eximir-se completamente do encaminhamento econômico nacional que o Banco Central foi entregue à Banca Internacional e é a ela que o governo, na prática, se submete.

O que mais incomoda mesmo é ver o esforço hercúleo que se faz para “melhorar a auto-estima” do brasileiro, transformar-nos a todos em pollyanas e que todos vivam sorridentes e felizes enquanto o governo brasileiro tira dos mais pobres e da classe média o necessário a mandar R$ 300 milhões POR DIA para a ciranda financeira enquanto gasta – e pessimamente, ainda por cima! – menos de R$ 200 milhões em um ano com as despesas administrativas governamentais.

Que esse tipo de encaminhamento não tem como dar certo, é mais do que óbvio! Mesmo em economia doméstica, ninguém em sã consciência desviaria mais de um ano de salário para entregar em um único dia a ladrões engravatados imaginando com isso melhorar a sua existência! Esta política econômica é tão insana que o mais incrível é o fato de não se transformar em escândalo, o fato de todos aceitarem como cordeirinhos, sem nada fazer a respeito, como que acreditando no que os governantes sorridentes e felizes. Eles têm motivos para isso, bem alimentados e bajulados, coisa e tal, mas e o contribuinte, ri de quê? Por que não reage?

Tomemos novamente o caso dos militares como um dos trilhões de exemplos. Sem reajuste significativo há 12 anos (2 de FHC como ministro da Fazenda de Itamar, 8 de FHC como Presidente da República mais 2 de Lula como Presidente da República, obedecendo caninamente a Meirelles e Palocci na Fazenda) seu poder aquisitivo é hoje 1/10 do que era há 12 anos. A corrosão se deu efetivamente por causa da inflação, somada à inépcia destes sucessivos desgovernos em preservar o poder aquisitivo da categoria. Naturalmente, o exemplo, pontual, se multiplica por todas as categorias profissionais, de comerciários a bancários, passando por agricultores, funcionários públicos e profissionais liberais.

Como funciona a mente presidencial? “Se a inflação é o único motivo a levar corrosão aos salários” – premissa falsa – “temos de obedecer aos tecnocratas da econometria e fazer o que for necessário para manter as metas de inflação estabelecidas e assim o poder aquisitivo do trabalhador é preservado” – conclusão também falsa.

O pior mesmo é ter de escutar estes idiotas imbecilizados a repetir hipnoticamente os chavões criados pelos assessores de auto-ajuda e marketing de Lula e ser tachado de “torcer para não dar certo”. Falta é objetividade. Todo o bom brasileiro torce para dar certo. Mas como compatibilizar isso com tanta burrice disfarçada em tecnocracia?


Burrice ou esperteza?

Se uma pessoa sedentária e com altas taxas de colesterol e açúcares no sangue, às portas de se tornar diabético, recebesse uma receita para emagrecimento e redução de taxas de colesterol com base em carne suína, doces os mais diversos, picanha, carne no bafo e muito uísque seria insana se a seguisse, não?

E se o charlatão que elaborou uma receita assim maluca dissesse que não seguir a receita seria “derrotismo” ou “torcer para não dar certo”.

Guardadas as proporções, na economia é isto o que tem ocorrido no Brasil: um receituário que nos leva à paralisação da atividade econômica e ao aviltamento salarial (constatação empírica) mas que é defendido pelos charlatães que elaboraram tal receituário justamente sob a alegação de que, a má-vontade em seguir este receituário é “derrotismo” e “torcer para não dar certo”.

Essa política econômica dá certo, sim, mas somente para os banqueiros e especuladores! A gente precisava de uma que desse certo para a maioria da população deste país, eis o problema.


Nada mais parecido com um tucano que um petista no poder.
Nada mais parecido com um petista que um tucano na oposição.

É estarrecedor! PT e PSDB são partidos rigorosamente idênticos em “ideologia”, ou seja, são em tese “social-democratas”. Mas chegando ao poder, ambos praticam governos deslavadamente neoliberais e se transformam rapidamente em vítimas dos velhos caciques da política fisiológica e coronelista deste nosso Brasil.

Os argumentos que o PT outrora usava para buscar a implantação de uma CPI que investigasse desmandos no governo FHC são os mesmos usados hoje pelo PSDB com vistas a investigar a corrupção no governo Lula. Do outro lado, os mesmos argumentos e métodos que o governo FHC usava para barrar as CPI's – notadamente “querem desestabilizar o governo” e tome suborno a parlamentares para barrar a CPI – são hoje usados pelo PT com a mesma finalidade.

Há muita gente dizendo – neste grupo me incluo – que PT e PSDB tenderão a uma confluência ou mesmo fusão no período pós eleitoral de 2006. No PSDB não há pensadores ou militantes esquerdistas. É o genuíno “centro” no sentido clássico do termo. O PT deverá libertar-se do “lastro” de esquerdistas que, por algum motivo, decidiram-se a permanecer num partido que, há tempos, abandonou todas as bandeiras da esquerda.

Para a sucessão presidencial de 2006 – que já está nas ruas! – importante é perceber que “trocar 6 por meia-dúzia” em nada melhorará a vida do brasileiro. Talvez surja uma alternativa ética, genuinamente comprometida com as classes oprimidas do Brasil, mas ainda assim, a descrença no sistema representativo burguês vai se generalizando e outras alternativas ao encaminhamento político vão sendo pensados e propostos. Possa Deus apiedar-se de nossa Pátria.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 02/06/2005






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