De Novo o “Golpismo”

 

Sempre que, no Brasil, a oposição ao governo se articula legitimamente para sucedê-lo apontando seus erros, surgem denúncias de “golpismo”. O que acontece no momento não é exceção. A exceção reside apenas na dimensão que a corrupção tomou no governo do PT e a surpresa de todos diante de um partido que por tantos anos informou defender a bandeira da ética na políca...

José Dirceu, que estava no centro decisório do chamado “núcleo duro” do governo petista, foi derrubado por um pronunciamento do deputado governista Roberto Jefferson: “Sai daí, Zé! Sai daí bem rápido!”

Obediente ao aliado do Planalto, Dirceu caiu, mas caiu falando grosso. Estaria acontecendo um pretenso “complô das elites” para derrubar o primeiro governo esquerdista e popular já eleito no Brasil. Que elite? A elite dos banqueiros, que jamais lucraram tanto quanto neste governo? A elite dos agroexportadores, felicíssimos com a política econômica tucana, a que Lula dá continuidade? A que elite esse louco se refere? O que um governo que privilegiaria banqueiros e o agroshow em detrimento do social, aviltando salários e elevando impostos em de “esquerdista ou popular”?

Fico me lembrando de Collor de Mello que, na campanha de 1989 acusava Lula e o PT de ter um plano para “confiscar até a poupança do contribuinte”. Falava de seu inconsciente, soubemos mais tarde.

Quando Lula, Dirceu, Mercadante, Genoino, Delúbio, et caterva discursam na direção de um golpismo estariam traindo o seu inconsciente?

Para fazer isso de que os tucanos o acusam, arquitetar um golpe “chavista”, Lula precisaria contar pelo menos com as Forças Armadas. As mesmas Forças Armadas há décadas perdendo poder aquisitivo e que acabam de ser logradas por Lula que prometeu um reajuste e depois disse aos comandantes militares que não cumpriria a promessa determinando-lhes ainda “acalmar a tropa” e remover o acampamento das esposas.

Ou contar com uma mobilização popular a favor de sua permanência no governo – deve estar se sentindo ameaçado, pois os discursos da oposição, à esquerda e à direita, apontam na direção de aguardar a sucessão presidencial pela via eleitoral regular em outubro do próximo ano. Os únicos a falar em “golpismo” são os governistas...

Discordo da oposição de direita num ponto nodal: Hugo Chavez, sempre que pode, demonstra o quão diabólico é o capitalismo. Lula aderiu ao neoliberalismo com um extremismo de fazer inveja aos mais conservadores economistas do FMI! Será que Lula contaria com o apoio popular para implantar por aqui uma ditadura de corte fascista? Aí entramos no terreno do imponderável. Pode consegui-lo, através da propaganda maciça e massificante que vem fazendo, caso a maioria se veja melhor reconhecida na propaganda oficial do que em seu cotidiano de misérias, desemprego, subemprego, impostos elevadíssimos e serviços públicos péssimos. No Brasil, nada mais me surpreende...


Onde estão os culpados?

Parlamentares da oposição frequentemente se queixam com a total hegemonia do governo Lula até sobre a capacidade de criar dificuldades ao próprio governo: convocam-se ao ministério gente de passado obscuro e reputação enlameada, subornam parlamentares e um de seus aliados o denuncia...

Quem convidou Waldomiro Diniz para o governo? Quem montou uma salinha para que Sílvio Pereira, Delúbio Soares e José Genoíno fizessem negociatas no 4º andar do Palácio do Planalto para nomear e indicar apaniguados do PT e aliados? Quem criou o esquema do “Mensalão”? Antes: quem convidou o PTB e chamou o deputado Roberto Jefferson a compor a “base aliada”? E a que preço?

É compreensível que o governo mais corrupto que o Brasil já teve seja também aquele que mais profere bravatas. Daí a Lula ser a maior autoridade ética do país vai uma distância muito grande! Depois de tantas mentiras ao povo brasileiro, como ousa vestir o manto da ética, que ele mesmo jogou no lixo aos 23 anos do PT?


Lula, o ingênuo

Se for verdade que Lula não sabia das falcatruas arquitetadas a duas salas da sua, no Palácio do Planalto, estamos diante de um presidente fraco, incapaz não apenas de perceber a realidade miserável do país que governa, mas também incapaz de saber o que ocorre em sua própria administração! Muitos a ele apodaram o epíteto de “autista”.

Não creio... Prefiro pensar que Lula sabia de tudo e toda esta manobra é para poupá-lo, recapeando-o com uma aura de um passado histórico de retirante e semi-alfabetizado, que galvaniza boa parte da opinião pública. Embora hoje faça parte da elite e para ela governe, ainda goza de grande apoio por parte da opinião pública. As pesquisas de opinião – eu nunca conheci ninguém que tivesse sido pesquisado – informam que a popularidade de Lula está caindo. Menos mal...

Triste é não ver surgir nenhuma outra liderança à esquerda que se contraponha a Lula para a sucessão de 2006 em condições de sucesso. Ou continua o PT ou voltam os Tucanos. De todo o modo, quem perde é o Brasil.

CPI’s e Comissões

Na CPMI dos Correios poucas novidades. A se ressaltar que tudo aponta na direção de uma ponte – não apenas nos Correios – entre as nomeações políticas e a salinha de Sílvio Pereira (que nem funcionário público é!) no Planalto. Deve aprofundar a pesquisa nesta direção, pois a opinião pública acompanha com uma atenção comparável a finais de copa do mundo!

O Planalto nega a existência da tal salinha de negociatas, naturalmente, mas uma coisa vista por tantos o tempo inteiro não pode ser assim suprimida, sem mais. Basta esperarmos que um funcionário ou ex-funcionário do Planalto (mesmo sob ameaça de morte) aparecerá para confirmar a tal salinha.

Na Comissão de Ética da Câmara, mais e mais evidências vão aparecendo e comprovando as denúncias do deputado governista Roberto Jefferson: o PT pagava, realmente, “luvas” e um “Mensalão” para os parlamentares que passassem a partidos da base aliada, desde que não fosse o PT que, por algum motivo, era preservado. Talvez receio do próprio “fogo amigo”, que já abateu tantos governistas... É questão de tempo e averiguação rigorosa. Mas tudo indica que haverá cassação do mandato e direitos políticos de vários deputados venais.

O Supremo Tribunal Federal decidiu favoravelmente à minoria no Senado e determinou que, como os líderes partidários não o fizeram compete ao presidente da Casa designar os líderes da CPI dos Bingos, também conhecida como CPI do Waldomiro. Novas e eletrizantes revelações se avizinham, junto às nuvens negras que cobrem o governo, do horizonte.


Muita CPI paralisa o governo?

Esta é outra falácia. Primeiro porque dá a impressão de que Lula estaria efetivamente governando, e não está. Só viaja, faz discursos. Inaugurações de obras feitas por outros e muita propaganda. Em segundo lugar porque deputados e senadores já se mostraram várias vezes capazes de atuar em ambas as frentes: investigação rigorosa sob os holofotes da mídia e atuação parlamentar não estão em contradição.

A instalação das CPI's é necessária principalmente para dar um “basta!” a tanta corrupção e bandalheira na relação promíscua entre os poderes Executivo e o Legislativo. Desde já, “a fonte secou”, disse Jefferson – e com isso deve estar sobrando mais dinheiro para o governo Lula enviar aos insaciáveis banqueiros, para quem governa – e os senhores parlamentares terão de se satisfazer com seus salários e mordomias, que já não são poucas...

Além disso, há precedentes históricos e o país sempre saiu ganhando! Hoje temos uma CPI mista investigando os Correios, já há número regimental de assinaturas e um debate para a instalação de uma CPI do Mensalão (que pode circunscrever-se à Câmara ou ser também mista) e a determinação do STF na direção de uma instalação, pelo Senado Federal, de uma CPI dos Bingos ou CPI do Waldomiro.

Manobras ou desculpas postergatórias terão o condão, na melhor das hipóteses, de somente concluir os trabalhos quando os culpados estiverem fora do Brasil, longe dos braços da Legislação Brasileira, como tantas vezes aconteceu em nossa história.


Reforma Política sim, mas não com este Congresso

Temos de ir fundo nas investigações de corrupção que começam no Palácio do Planalto em sua relação promíscua com o Congresso Nacional. Mudar o foco na direção de uma reforma política neste momento é um contra-senso. Ainda mais da maneira que muitos vêm apresentando e que, na prática, acabam com partidos sérios porém ainda pequenos.

Este Congresso já está podre e desacreditado. Muitas denúncias, muito troca-troca de partidos por motivos mal explicados.... Que as eleições de 2006 tragam este assunto à baila, vá lá. Mas preservando os direitos das minorias e que fique claro o propósito, durante a campanha do próximo ano, de se levar a cabo uma Reforma Política séria e aprofundada pelos parlamentares que serão eleitos.


Economia estagnada

Enquanto os bancos e o agroshow comemoram recordes de lucratividade e exportação, o poder aquisitivo do trabalhador brasileiro atinge um de seus mais baixos patamares históricos. O desemprego, em níveis nacionais de 20%, avilta a mão-de-obra. O empresário não contrata pois no Brasil de Lula é mais lucrativo e seguro aplicar no mercado do que investir em empresas. Com um grande exército industrial de reserva, os salários e direitos trabalhistas são “negociados” de maneira aviltante, diminuindo a circulação monetária e agudizando ainda mais a crise. Para sair desta estagnação, somente cumprindo com o que o PT prometeu ao longo de 23 anos: dar um calote na dívida para resgatar o social. Enquanto estiverem dando calote no social para saldar dívidas ilegítimas viveremos esse purgatório até que o limite de paciência dos brasileiros atinja o seu limite.

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 23/06/2005






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