Com vistas à reeleição de 2006, Lula busca afastar-se do PT

 

É uma tática a um só tempo inteligente e arriscada. Nada ética, nem um pouco sincera ou honrada, mas há muito que o Presidente e seu Partido deixaram de se preocupar com estes valores.

No que se evidenciou ser um acordo entre Lula da Silva, Delúbio Soares e Marcos Valério, provavelmente sob assessoria de algum advogado ou jurista como Márcio Thomaz Bastos, dizem os três em uníssono que o PT fazia “Caixa 2” ou utilizava-se de “recursos não contabilizados”. Isto constitui crime eleitoral que já teria prescrito, deixando a todos livres, lépidos e fagueiros.

De onde viriam estes mais de R$ 90 milhões que foram distribuídos entre tantos para comprar consciências? Marcos Valério teria tomado esta montanha de dinheiro emprestado e cedido bondosamente, a pedidos, a seu amigo Delúbio Soares que destinava estes recursos para pagar gastos de campanha a deputados do PT e da Base de Sustentação do Governo. Num país em que seres humanos comuns precisam dar milhares de comprovações de renda e apresentar avalistas, tendo toda a sua vida econômica inteiramente devassada para conseguir comprar um eletrodoméstico modesto a crédito ou conseguir um mísero empréstimo bancário, estes cidadãos fora e acima da lei conseguem levantar rios de dinheiro junto a entidades bancárias, alegadamente sem a menor garantia!

Comprovada mais uma vez a teoria de Edgar Vasquez segundo a qual “pobre não é aquele que rouba, pobre é aquele que rouba pouco!”

Segundo Lula, em sua estranha e extemporânea entrevista em Paris, “o que o PT fez constitui prática usual no Brasil”. Note-se que o Presidente diz “o que o PT fez” e não “o que nós fizemos”. E propõe uma averiguação “a fundo”, “doa a quem doer”, “cortando na própria carne” em seu discurso enquanto, na prática, busca ocupar todos os espaços possíveis para dificultar as investigações.

Se diz que “pior que falar bobagens é fazer bobagens”, se esquece que ele faz ambas as coisas! Mais que bobagem, constituindo-se confissão de um crime, por exemplo, é dizer que “fazer caixa 2 é prática comum no Brasil”. Isto não leva o governo petista para o campo da legalidade. É o mesmo que um assassino alegar: “matei porque o assassinato é uma prática comum no Brasil.” Esta lógica bufa não se sustenta. Falar desta bobagem que fez e tentar justificar com mais boutades é insultar a inteligência das pessoas!

Fundamentado nas pesquisas de opinião, Lula considera que, desde que se afaste do lamaçal que hoje engolfa o PT e o Congresso Nacional, se reelege em 2006 e, apostando nisso, joga o PT às feras, fala cobras e lagartos de seus antigos companheiros do “Velho Diretório” do PT (seres humanos que o acompanham há um quarto de século, como José Genoíno, Delúbio Soares, Sílvio Pereira, etc.) e se insurge contra uma pretensa elite que pretensamente postularia um golpe de Estado.

Que elites? A dos banqueiros? A do agroshow? Mas é com estas elites e para estas elites que Lula está governando! Mais: Lula se esquece de que o lamaçal começa e seguramente as investigações chegarão até o quarto andar do Palácio do Planalto. Foi justamente a Presidência da República e a Casa Civil que começaram a enlamear a República, estabelecendo uma relação promíscua com o Congresso Nacional. Foi precisamente o Presidente Lula que partidarizou a República, aumentando a confusão entre o público e o privado e, pior ainda, entre governo e partido político.

Lula se elegeu com uma plataforma de “mudanças” e optou por seguir precisamente o mesmo caminho que vem sendo dado desde o governo Itamar Franco/FHC: estabilidade econômica através da prática de altas taxas de juros, práticas assistencialistas localizadas (bolsa-isso, bolsa-aquilo...) e nada de Reforma Agrária. A única mudança é a já comprovada prática sistemática do suborno a parlamentares venais. O povo votou numa mudança ética e política para melhor e obteve o continuísmo econômico e uma deterioração brutal na dimensão da ética no encaminhamento da política.

Hoje, Lula deseja se desvencilhar do PT, completamente enlameado, e, com base numa popularidade incompreensível, se reeleger. Conseguirá? Com a palavra o eleitorado.

Lázaro Curvêlo Chaves – 21/07/2005




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