A Fina Linha Azul

 

Um personagem curioso ocupou manchetes nesta semana: Toninho da Barcelona, um “doleiro” condenado a 25 anos de prisão por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e uma série de operações econômicas ilegais que constituem prática comum aos jogadores das bolsas de valores e agiotas de todos os naipes em nosso país, como Henrique Meirelles, por exemplo. A grande diferença entre eles é que o Toninho da Barcelona, além de em algum momento haver ultrapassado a tênue linha azul que separa a legalidade da ilegalidade no sistema econômico satânico conhecido como capitalismo, não conseguiu dispor da condescendência do governo petista, que prefere blindar e proteger seus criminosos e mantê-los no cargo, salvo raras exceções.

Aqui cabe uma observação. Lula asseverou que “jamais demitiria algum de seus auxiliares com base em denúncias, somente após condenação definitiva e transitada em julgado”. Age assim com Meirelles, que responde a 4 processos no STF por crimes contra o sistema financeiro e eleitoral de nosso país. Mas fez questão – no pífio discurso em que informou que “o PT e o governo, onde erraram devem desculpas ao povo brasileiro”, eximindo-se de ambos (governo e PT) no que tange a suspeitas de irregularidades – de dizer que, “mesmo sem provas, tomou o cuidado de afastar todos aqueles sobre quem pairava alguma suspeita de corrupção”. Com algumas exceções, claro ficou.

Na Bahia foi infeliz mais uma vez ao dizer que “tem muita gente querendo jogar a crise dentro do Palácio do Planalto” – delirando, talvez, ser desejo ou intenção de seus opositores, quando em verdade a crise nasceu no Palácio do Planalto em sua relação promíscua com o Congresso e aqueles que se podem responsabilizar por “jogá-la no Planalto” atendem por nomes como José Dirceu, Waldomiro Diniz, José Genoíno, Delúbio Soares, Marcos Valério, José Mentor, Sílvio Pereira e outros de seus aliados.


Grupo terrorista COPOM mantém elevada taxa de juros

Capitaneado pelo gângster Meirelles, o grupo terrorista institucionalizado decidiu-se por manter a taxa de juros em 19,75%, a maior do mundo e, assim, a lucratividade, já fantástica, dos bancos.

A política econômica esquizofrênica do governo Lula prega e propala crescimentos mas faz de tudo para impedi-lo. Entenda quem puder. Estimular o crescimento da economia com elevadas taxas de juros, salários baixíssimos e impostos escorchantes é um contra-senso evidente!

Num país em que o Guardião da Moeda Nacional responde por crimes contra o sistema financeiro e é protegido pelo Presidente da República, o mínimo que se pode dizer é que a ganância venceu a esperança .


Tadinho do Lula...

Desde o início da presente crise, o Presidente da República vem enfatizando as agruras de sua biografia. É de dar dó, realmente... Retirante nordestino, que chegou a comer café com farinha na infância, que já passou fome, veio para São Paulo num “Pau-de-Arara”, é filho de pai e mãe analfabetos – que infelizmente não conseguiram transmitir-lhe noções básicas de ética ou honradez... –, que perdeu o dedo mindinho logo ao início de sua carreira de torneiro mecânico e teve muito trabalho para provar que foi um acidente e não a fim de que tivesse mais tempo para a militância política, com uma renda fixa garantida, que optou por jamais estudar, que deplora livros e intelectuais.

Uma história de vida com início difícil não é atestado de idoneidade moral a ninguém, pelo amor de Deus! A maioria dos cidadãos deste país tem histórias de vida assim. Você aí que chegou até esta linha, quantas pessoas conhece que “vieram de baixo”?

Que adianta ter um operário na Presidência da República se, no que governa, o faz para os banqueiros, os grandes capitalistas e contra a classe social de que é oriundo? Qual é a moral de se ter uma mãe que “já nasceu analfabeta” se nem o filho cogitou em estudar e repudia os sábios? Não há no Brasil, entre quase 200 milhões de seres humanos, um único que tenha maior censo ético e comportamento moral ilibado do que Lula? Isso não é pretensão demais, não? Nosso país, tão sofrido e mal governado, tem clérigos, sacerdotes, filósofos, artistas, poetas, artesãos, trabalhadores dos mais diversos ofícios e Lula – este que suborna parlamentares para que votem contra suas próprias consciências e contra o povo brasileiro – se julga sinceramente o mais ético de todos os brasileiros? Tenha dó...


Governo suborna parlamentares e Câmara reduz o valor do salário mínimo

O Senado Federal contrariou a Medida Provisória que estabelecia o valor do Salário Mínimo em R$ 300,00 e votou um aumento para R$ 384,00. Lula reagiu indignado: “isso é uma irresponsabilidade!”

Ser responsável é comprar avião, subornar parlamentares e cobrar os mais elevados impostos e juros do planeta para desviar recursos da produção para a especulação financeira? Eu prefiro a irresponsabilidade dos Senadores da República, que decidiram mui lucidamente, com base em estudos de economistas renomados de esquerda, segundo os quais este reajuste – longe, bem longe do ideal – é perfeitamente exeqüível e ainda traz consigo a vantagem de melhorar a redistribuição de rendas em nosso país que, neste quesito, só perde para Serra Leoa, na África, onde há pouquíssimas fortunas imensas e uma grande massa de miseráveis. O Brasil está em segundo lugar mas, com o empenho que Lula vem demonstrando, se ele permanecer muito tempo no poder, havemos de ultrapassar Serra Leoa e nos transformaremos no país com a mais injusta distribuição de renda do planeta.

Para garantir que a Câmara dos Deputados derrubasse o aumento votado no Senado Federal, Lula declarou (se cumprirá é outra história) que liberará R$ 1 bilhão para as emendas dos parlamentares que votassem contra o povo, a favor do sistema financeiro e reduzisse o Salário Mínimo para os R$ 300,00 da Medida Provisória. É fenomenalmente espantoso que a Câmara, no meio do descrédito popular em que se encontra, cometa um crime de lesa-pátria deste porte para atender a um presidente que já ficou famoso por não cumprir acordos.


Marketing atingido

Semana passada o apreciador de rinhas de galo Duda Mendonça abriu o jogo: cobrou R$ 25 milhões do PT para eleger seus próceres na campanha de 2002 condicionando o recebimento à vitória deles e, portanto, ao desvio de dinheiro público para pagar pela transformação de um sapo barbudo num prato mais palatável à classe média que, segundo análise de muitos, é quem define as eleições no Brasil.

Ainda assim teve dificuldades em receber o dinheiro e, comparando o depoimento dele com o de Roberto Jefferson, confere a versão de que o PT, de alguma forma, mantinha recursos de elevada monta no exterior e estaria encontrando dificuldade em repatriar tais divisas uma vez que “a Polícia Federal é meio tucana” (teria dito José Dirceu reservadamente a Roberto Jefferson). Teve de abrir uma conta num “paraíso fiscal” para que conseguisse receber em moeda estrangeira por um serviço prestado no Brasil.

De onde vêm tais recursos? Especula-se: de nossos impostos, do narcotráfico, das FARC e até mesmo se aventou uma “Conexão Taiwan”!

Ora, Duda aparentemente insatisfeito, deixa de exercer a sua magia. Aliás, a confusão é tanta que envolve ainda o ex-ministro e ex-secretário, hoje não-sei-o-quê Luiz Gushiken, que lidava com o grosso dos recursos de propaganda do governo mas, meramente rebaixado, não há sinais de que venha a responder pelos crimes que praticou.


PT agora precisa de claque para se segurar

Foi-se o tempo em que Lula e o PT conseguiam galvanizar multidões idealistas em torno de suas plataformas. Lula pouco governou. Está permanentemente em campanha.

Com o PT transformado num partido tradicional de direita e Lula precisa manter a sua auto-estima, o cerimonial do Planalto faz o impossível para conseguir reuniões em rincões isolados desta Pátria sofrida, onde reúne uns gatos pingados a quem, como qualquer coronel nordestino do século passado, transporta e concede brindes, em troca de que obtém platéia disposta a aplaudir e aparecer bem na televisão, para manter a ilusão de sucesso e aceitação pública. Mas até mesmo os institutos de pesquisa mais venais são obrigados a reconhecer que a crise em que Lula enfiou o país já atinge em cheio a sua popularidade.

Foi-se o tempo em que a um simples chamado do PT íamos à Praça da Sé ou à Cinelândia protestar contra os baixos salários e péssimos governos. Hoje é o PT que reduz salários e governa mal. Para juntar pessoas precisa contratar todo um aparato e evadir-se dos muitos que protestam...

Pouca gente cogita ainda acerca da reeleição. A palavra cautelosamente tratada mas sempre repetida é “Impeachment”. Está cada vez mais difícil imaginar Lula no comando do país até o final de 2006. Mas ainda não se chegou a um consenso: qual a alternativa? E como viabilizá-la?

Enquanto isso, seguimos com um presidente-tartaruga-no-poste, um pato manco no comando desta gigantesca Pátria “Deitada eternamente em berço esplêndido”.

Como já aconteceu no passado, as manifestações de jovens nas ruas apontam na direção de um novo caminho. Estamos assistindo, por enquanto, somente aos esboços. Mais vem por aí. Os desdobramentos desta crise fantástica, em que a cada momento surge uma nova denúncia, uma nova evidência de incúria, são ainda uma incógnita. Permaneçamos vigilantes.

Concluo estas linhas com um trecho do “Solo de Clarineta”, de Érico Veríssimo, bem a propósito:

“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

Lázaro Curvêlo Chaves – 18/08/2005

 

 




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