De Manifestações e CPI’s

 

16 de agosto – Manifestação “Chapa Branca”

Na terça-feira passada, atendendo a convocação do Governo Federal, a UNE e a CUT tentaram organizar uma manifestação pró-Lula em Brasília. As estimativas, como de costume, são polêmicas, mas o número mais consentâneo gira em torno de 6.000 participantes.

Contando com um poderoso aparato de suporte, transportes, recursos em dinheiro, lanches e carros de som sob os auspícios do Planalto, os manifestantes tentaram encorpar mais a manifestação fazendo um “arrastão” na UNB. Mas a cada sala que passavam ouviam dos alunos coisas como “Já estamos comprometidos com a manifestação de amanhã, contra o Lula...”

Aldo Rebelo, o ex-ministro que foi cozido em água morna até cair de volta à Câmara, puxava palavras de ordem de um carro de som: “Fica Lula!” – Nem a isso as pessoas presentes respondiam. Alguns pareciam compreender se tratar de uma manifestação contra a corrupção mas a favor de Lula. A maioria estava ali a passeio e paquera, como sempre ocorre em mobilizações organizadas de cima para baixo. Foi, em síntese, um fiasco que a maioria das emissoras de TV – concessões estatais... – tentou em vão transformar num “sucesso”.

Lula estava em Brasília mas não há referência a que tenha participado pessoalmente do evento. Naturalmente temia a péssima recepção que teria.


17 de agosto – Manifestação da Oposição de Esquerda

A manifestação da véspera foi marcada de afogadilho, para tentar minorar a repercussão desta, que foi muito mais numerosa, profunda, séria e preparada com maior antecedência. Calcula-se entre 15.000 e 20.000 manifestantes. Não contaram com qualquer apoio infra-estrutural governamental, foram “na garra” mesmo. Era a velha esquerda atuando limpidamente como de hábito. Caravanas de vários pontos do país, todos se locomoveram por meios próprios e levaram seus próprios farnéis e adereços – marcante também como a manifestação do dia 17 foi mais bem-humorada, mais colorida, mais coesa e coerente. Sem o rabo preso com ninguém ostentavam palavras de ordem como “Fora Lula!”, “Abaixo a corrupção!” e até mesmo “Fora todos!”

A deputada federal Luciana Genro propôs um plebiscito para que o povo brasileiro se manifeste no sentido de informar se desejam abreviar os mandatos do parlamento e da chefia do Executivo ou se preferem seguir com estes parlamentares e governistas cobertos de lama até o final de 2006. Mesmo com pouquíssimas possibilidades de vingar, a idéia é original e muito interessante.

No mesmo dia, Lula foi para o interior da Bahia fazer mais uma inauguração banal (em verdade fugia do vagalhão humano que lotava a Esplanada dos Ministérios até a frente do Palácio do Planalto) e, como todo o político tradicional, mandou vários ônibus buscar a sua própria claque, distribuiu bandeirinhas, camisetas e estrelinhas além de conclamar as palavras de ordem governistas conhecidas.

O Presidente da República mais uma vez se evadiu de explicações ou enfrentamento. Lula aderiu de corpo e alma à onda da auto-ajuda, seu discurso o repete ad nauseam repisados bordões pseudo-populistas e, sem condições de governar, parte para o aconselhamento pessoal: “Façam exercícios físicos, pratiquem esportes.” Como disse mui sabiamente Fernando Gabeira, “Lula passa todo o tempo protestando inocência mas comporta-se como culpado...”

Foi-se o tempo em que o PT tinha condições de organizar manifestações espontâneas. Mais uma prerrogativa que perderam ao se transformar num partido de direita. Agora tem de se portar como os demais partidos tradicionais e levar a sua “claque” para onde interessa, oferecendo brindes e lanches aos participantes a fim de garantir o aplauso fugaz do momento e aparecer bonito nas redes oficiais ou oficiosas de televisão.


Comissões Parlamentares de Inquérito

Já é suficientemente mau que o governo esteja acuado e reduzido a tentar o indefensável. Toda a cúpula petista e seus aliados estão respondendo a inquéritos e, por mais que se insista num “acordão”, este fica cada vez mais inviável. Vivemos tempos novos, com Internet, acompanhamento ao vivo de todos os passos, etc.

Na CPI dos Correios foi a vez dos tesoureiros do PL e do PTB. Na do Mensalão foi a vez do tesoureiro licenciado do PT. Todos manifestam uma falta de memória extraordinária. Lidavam com rios de dinheiro mas não têm a menor idéia de onde vinha e para onde foi. Delúbio Soares levou o “Oscar” de cinismo: o cara é um rematado imbecil, vive drogado ou passou por algum trauma recente que lhe retirou a memória. Nem mesmo à pergunta: “V. Sa. é amigo do Presidente Lula?” ele soube como responder! Perguntavam sobre viagens e encontros e ele fazia longas digressões em torno de sua trajetória na CUT e no PT, usando à farta o sujeito indeterminado, caindo em contradições e deixando claro que ali estava meramente para amenizar sua situação judicial, mas sem a menor disposição de prestar qualquer informação que possibilitasse à CPI avançar. Deixou claro que somente se defenderá em juízo. Como a justiça brasileira é exageradamente condescendente com criminosos de grosso calibre, ele passa mesmo um ar de tranqüilidade fantástico!


Qual será o fim disso?

Dentre os Parlamentares não há a menor sombra de dúvida de que Lula não apenas sabia de toda a tramóia – contratação de empresa de propaganda que seria paga com dinheiro público na assunção ao poder, suborno a parlamentares, prática de caixa dois, lavagem de dinheiro... – como foi mesmo o principal responsável. Em síntese, a certeza de todos é que Lula é o chefe da quadrilha formada para tomar conta do Estado Brasileiro e somente baldada quando Roberto Jefferson decidiu não cair sozinho nem em silêncio.

Contudo, para o impedimento de um presidente três condições são necessárias, como bem aponta Roberto Busatto, presidente da OAB: o delito praticado, mobilização popular e ação judicial. Na falta das duas últimas, o mais provável é que ocorram algumas cassações, se modifique cosmeticamente alguma coisa na legislação eleitoral e tenhamos de suportar esta quadrilha por lá até o final de 2006, momento em que devem voltar os tucanos que fazem exatamente o mesmo mas se apresentam mais profissionais e discretos em seus desmandos...

Lázaro Curvêlo Chaves – 18/08/2005

 

 




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