Metonímia no Brasil cordial

 

Especialmente em São Paulo, onde a colônia italiana é grande e o consumo de pizzas muito alto e sofisticado, o ato de reunir-se numa pizzaria tem freqüentemente o significado de celebração e acordo. Daí surgiu a expressão, muito difundida em nosso país, de que um processo envolvendo ações de ética ou legalidade duvidosa “termina em pizza” quando apenas alguns envolvidos de menor importância são penalizados e existe um movimento de acomodação para que, no fim, tudo caia no esquecimento e os verdadeiros culpados possam continuar praticando impunemente seus atos delituosos.

Fala-se e compreende-se que, ao fim e ao cabo de todas as investigações acerca da existência – já comprovada testemunhal e documentalmente – do pagamento de suborno por parte do governo Lula a parlamentares venais, boa parte – se não todos – os envolvidos serão absolvidos e ocorrerá uma confraternização, talvez mesmo um jantar ou um ágape durante o qual “role” este consenso gastronômico que é a pizza. Utilizar o concreto – pizza – no lugar do abstrato – confraternização – caracteriza a figura de linguagem conhecida como metonímia.

Atribui-se frequentemente ao caráter cordial do brasileiro, exaltado e enaltecido pelo pai do Chico Buarque, Sérgio Buarque de Hollanda no Clássico Raízes do Brasil , esta capacidade quase infinitamente plástica de conjuminar opostos numa confraternização após severos entreveros.

A Obra máxima de Sérgio Buarque – que não pretendo resenhar aqui, ressalto apenas o fato de ser ele o criador da expressão – traz ao leitor aquela inquietação típica de quem se vê retratado, não gosta do que vê mas é obrigado a admitir que, de fato, o Autor tem razão e ponto final.

Somos cordiais, “bonzinhos”, em direito se diz mesmo que “é sempre melhor um mau acordo que uma boa contenda”. No futebol – alegria do brasileiro, recém-manchado pela contaminação da corrupção, que segue o exemplo dos de cima – é preciso dar um jeitinho, levar vantagem, tem até uma “turma do deixa-disso” para os casos extremos...

Há efetivamente uma propensão incrivelmente forte na direção de se ajeitar as coisas, de não se levar às últimas conseqüências – por mais que o discurso vá em direção oposta –, de se buscar acordos, acordinhos e acordões, enfim e  as investigações do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados apontam, já em seu transcurso, nesta direção.

Esta propensão é tida por muitos cientistas políticos – dentre os quais destaco Gisálio Cerqueira Filho – como um impeditivo à resolução radical (que vai na raiz) de nossos problemas. Uma vez que, ao invés de buscarmos a luta até as últimas conseqüências preferimos o “jeitinho”, o “favor”, o “quebra-galho”, vemos impedida, ao longo dos séculos, uma ruptura com o antigo para que o novo nasça.

Provavelmente José Dirceu seja inocentado. Ele mesmo deixou escapar uma absurdidade inacreditável: “a cada vez que venho a este Conselho [de Ética] fico mais convencido de minha inocência”. Mais vezes ele vá e, culpado até a última raiz de cabelo, se sentirá o mais inocente e puro dos mortais. Talvez não pense em ser canonizado – consta ser ateu – mas deseja entrar para a história de uma forma diferente desta que ele mesmo escreve com seus atos.


A eleição e a promessa

Uma das coisas mais usuais no Brasil é o descumprimento de promessas de campanha. A rigor, raramente ocorre algo diferente de “Estelionato Eleitoral”, da eleição do Collor de Mello à eleição de Lula da Silva – com todas as diferenças que possam conter, Collor surge como “um raio em céu azul” e Lula é fruto de um movimento político de massas, histórico. Ambos, ao chegar ao poder, preferiram aderir à herança maldita a romper com a ordem vigente, conforme ambos prometeram nas campanhas. O primeiro centrou sua campanha na “Caça aos Marajás” e “combate à corrupção”. No governo levou a cabo um projeto político neoliberal, seqüestrou numerário popular de contas correntes e cadernetas de poupança – a poupança perdeu inteiramente a credibilidade no Brasil desde aquele episódio, por sinal, o que é em si gravíssimo. O segundo centrou as baterias na defesa dos pobres, dos oprimidos, da “Classe Trabalhadora” e também no “combate à corrupção”, que é e será uma eterna plataforma eleitoral enquanto não se romper com a ordem capitalista. Ao chegar no poder, preferiu dar continuidade ao projeto neoliberal fundado no Brasil de Collor e aprofundado pelo ex-Ministro da Fazenda do Vice-Presidente que assumiu quando Collor renunciou. Há uma linha de continuidade direta, da ditadura militar aos dias de hoje em torno de levar a economia nacional a uma subserviência cada vez maior ao grande capital especulativo internacional. Nem Collor acabou com a corrupção, nem Lula rompeu com a herança maldita. E ambos entram para a história precisamente por fazerem o contrário do que haviam prometido em campanha.

Lula, eleito para “mudar o Brasil”, preferiu “mudar de lado” levando o PT com ele.


Corrupção sempre foi prática da direita

Conto-me entre os que não concordam com a expressão: “o PT trouxe para o campo da esquerda algo que até então era hegemonia da direita: a corrupção”. Por um motivo muito simples: o PT se transformou na prática em um partido tradicional e direitista antes de mergulhar no fundo da corrupção.

Alguns parlamentares e militantes perceberam isso logo no início e, não concordando, foram expulsos ou se afastaram enojados. Outros ficaram sob as desculpas mais diversas. “É difícil romper com um passado de lutas”, diziam uns, e iam ficando no partido que rompeu com seu passado de lutas heróicas jogando no esgoto sua aura de pureza ética. “Temos de combater dentro do partido”, diziam outros, que nem combatiam nem saiam, somente discursavam. Hoje ocorre uma debandada apressada, senão se perde o prazo para as eleições de 2006.

Com todo o respeito ao passado heróico de lutas do Partido dos Trabalhadores e muitos de seus epígonos, este tipo de comportamento tenderá a levar a lama que contaminou o PT para um partido que nasce com uma proposta diferente, o PSOL.

Bem, o PSOL nasce como um partido que pode ser considerado de esquerda, mas centrado na cúpula, o que está longe de ser amplamente democrático. Um partido que nasce criado por deputados e uma senadora oriundos do Parlamento Burguês é visto com extremada desconfiança por parte dos trabalhadores e intelectuais. Os trabalhadores tendem a ver mesmo o intelectual com desconfiança, tradicionalmente. “Intelectual é parte da elite”, pensam os trabalhadores, muitas vezes não sem razão.


O Intelectual, que bicho é esse?

O mesmo raciocínio que nos leva a concluir que “o homem é um animal político”, como dizia Aristóteles, conduz a esta outra, similar: “o homem é um animal intelectual”, como dizia Antonio Gramsci, sempre que exerce atividade intelectual: o camponês é intelectual quando faz contas ou lê para seus filhos; o operário é intelectual quando discute política e assim por diante.

Há pessoas que fazem das letras a sua profissão: professores, pesquisadores, profissionais liberais em geral. Estes exercem atividade intelectual durante um tempo maior do que outros tipos de profissionais.

Aprofundando um pouco, Gramsci introduziu ainda o conceito de “intelectual orgânico”. Há intelectuais organicamente ligados à classe dominante e intelectuais organicamente ligados à classe trabalhadora. Quando Lula era candidato, todos imaginavam que pessoas com amplo conhecimento técnico como os hoje Senadores Aloísio Mercadante Oliva e Eduardo Matarazzo Suplicy – grandes expoentes da intelectualidade econômica organicamente ligados à classe trabalhadora ao longo da história do Partido dos Trabalhadores – seriam os primeiros a encaminhar a economia nacional. Sequer foram consultados. Lula preferiu aliar-se a um gângster internacional que guindou ao posto máximo de guardião da moeda nacional, o até então ilustre desconhecido da massa e intelectual orgânico dos banqueiros Henrique Meirelles. Para as aparências, convocou Antônio Palocci Filho – conhecido por suas posturas contrárias aos interesses da classe trabalhadora, mas membro do partido – da prefeitura de Ribeirão Preto para o Ministério da Fazenda tendo como seu mentor informal, não oficial, mas oficioso, o antigo intelectual orgânico do grande capital especulativo internacional Antonio Delfim Netto.

Na Cultura, muitos imaginavam Marilena Chauí, que prefere ficar hoje em silêncio e seguramente terá algo a dizer em público ao final do governo Lula – que, para desgraça do brasileiro, pode vir a ter um segundo mandato. Contrariando as expectativas, convidou um cantor talentoso e político polêmico: Gilberto Gil. Centrar o governo na restrição econômica obrigou o governo Lula a cortar brutalmente verbas da Cultura e mal sobraram recursos a que nosso vaidoso cantor mandasse reformar a sua sala a peso de ouro. Paralelamente a isto, Gil, que tanto sofreu com a censura da ditadura militar, tentou criar no Brasil – ainda tenta! – uma certa Agência Nacional do Cinema e Audiovisual (ANCINAV) que ficaria encarregada de exercer um controle sobre o conteúdo do que é veiculado na TV, cinemas, telefones celulares (!) e Internet.

Na educação, começou bem: Christóvam Buarque, ex-reitor da UNB, homem talhado para o exercício da função a quem foi negada toda a possibilidade de ação pelas restrições orçamentárias voltadas a engordar o superávit primário, robustecer a economia dos bancos e deixar a educação à míngua. Quando foi despedido – por telefone! – manteve-se fiel, mas, no Senado, vergasta o governo como uma verruma, informando da necessidade de se investir mais em educação, principalmente fundamental. E o governo preocupado em eximir-se até da obrigação constitucional de incrementar o acesso ao Ensino Superior Público e de qualidade, submeteu o país a essa excrecência que é o PROUNI.

Na saúde, então, o drama foi ainda maior. Em meio a uma enorme quantidade de médicos engajados nas causas populares, optou pelo desastrado Humberto Costa e o Brasil se vê envolto na maior crise do sistema de saúde de toda a história republicana.


Do republicanismo ou de como a repetição de uma expressão a esvazia

O sistema republicano fundamenta-se antes e acima de tudo na democracia e tripartição de poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – que, por meio de um sistema que Montesquieu chamava de “freios e contrapesos” deveria manter o governo sob rigoroso controle popular.

Uma vez que o governo Lula exerce diretamente ingerência no Parlamento, seja governando através de Medidas Provisórias, seja subornando parlamentares e tem no STF um aliado que “julga a partir de critérios políticos” a expressão “república” se perde, gerando uma pletora de críticas.

A estas críticas, todas pertinentes, os áulicos do governo respondem com a repetição hipnótica do termo que perdeu o significado: “governo republicano”, “somos republicanos”, “práticas republicanas”, etc. Tudo isso enquanto a centralização lembra um regresso à Monarquia.


Resistir e avançar sempre que possível

Não é mais possível acreditar no PT e o PSOL já nasce sob o signo da desconfiança.

É fundamental construir alternativas populares e seguir na resistência e persistência. Não será o medo da loucura que nos fará hastear a meio-pau a bandeira da imaginação!

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 29/09/2005

 

 




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