Uma Vida pela Vida

 

Para lá de polêmico

O projeto alcunhado de “transposição” do rio São Francisco, que consistiria em levar parte das águas de sua vazão – que lhe sobram – para Estados nordestinos que não contam com o benefício de suas águas é acalentado no Brasil desde D. Pedro II, que primeiro sonhou com a Obra deixando disso um grande estudo e muitos registros. Já em sua época – com o São Francisco caudaloso e forte – era difícil encontrar consenso. Hoje que o rio se encontra enfraquecido, assoreado, poluído e contido por barragens a polêmica é ainda maior.

Há pesquisas profundas e sérias em torno desta temática há mais de um século. Estudos patrocinados pela Universidade do Estado da Bahia – a alguns tive oportunidade de conhecer in loco, inclusive – são concludentes: sem revitalizar o rio, falar em transposição não é apenas um crime ecológico: é ilógica loucura mesmo.

Na Universidade Federal do Ceará encontram-se estudos acerca da prospecção de Petróleo na região. Interessante que, embora não tenham encontrado traços significativos do precioso óleo, as reservas aquáticas ali existentes, principalmente no subsolo dos Estados do Maranhão e Piauí são escandalosamente elevadas e de acesso mais simples, barato e direto – sem mencionar o incomparavelmente menor impacto ambiental – do que levar águas do rio São Francisco até aquelas lonjuras.


PT contra a obra

Durante o governo FHC este assunto foi ressuscitado, mas o Partido dos Trabalhadores, de saudosa memória, era um partido com forte apelo junto à classe trabalhadora e se posicionava unanimemente contrário à obra. O bispo de Barra, Dom Frei Luiz Flávio Cappio percorreu pessoalmente suas águas em companhia do eterno candidato Lula da Silva em 1994 e, ao fim e ao cabo, o projeto de FHC foi arquivado pelo menos até que as águas do Velho Chico passem por um processo rigoroso de revitalização. Não se transfunde sangue de um paciente doente; antes disso é fundamental tratar dele!


Um capricho presidencial

Num ponto acima de tudo apresento integral concordância com o pensamento da Senadora Heloísa Helena: “o sonho do PT, quando crescesse, era ser igual ao PSDB.” Impressiona que não nos tenhamos apercebido disso antes, mas o PT hoje se transformou em “Parece Tucano”.

A manutenção política econômica tucana, criticada acremente por Lula, transformou-se em sua prioridade absoluta. A compra de votos, praticada por FHC por ocasião da Emenda da Reeleição e outras similares transformou-se em prática usual do governo Lula – há três CPI's, muitos membros do governo perderam seus cargos devido ao envolvimento em esquemas de corrupção e toda a cúpula petista caiu. Tanto que neste domingo, 9 de outubro, haverá o segundo turno para a eleição de um novo presidente e uma nova chapa diretora para o partido.

Ao invés de criar novos empregos, avilta os antigos em serviço – que são substituídos por jovens a um preço mais baixo, aumentando os índices do governo e piorando a vida do povo – mantém o que também criticavam nos tucanos: o assistencialismo rasteiro via bolsas-esmola dos mais diversos tipos. Já não compreendem  mais que o povo não quer esmola, quer dignidade!

De conversões em conversões agora isso: o presidente de honra de um partido que defendia a ética e a ecologia hoje chafurda na lama dos escândalos sucessivos mas, por um capricho pessoal cismou em começar as obras de “transposição” de parte das águas do rio São Francisco para Estados nordestinos não beneficiados por suas águas.

Talvez considerando que, com esta obra compra a reeleição, talvez por acordos com as empreiteiras que lhe prestam tantos favores, talvez para atender aos criadores de camarões no interior do Ceará e outras regiões ali próximas, recusou-se a convocar um debate público sobre o tema, começou a comprar equipamentos e deslocar tropas do Exército para a região precipitando um protesto vigoroso por parte de quem, junto deste mesmo Lula, defendia o rio da sanha assassina de FHC em 1994.

O Bispo, num gesto radical e estremo, decidiu-se a entrar em greve de fome até a morte ou até ser ouvido pelo Presidente da República. Nos primeiros momentos, Lula manteve-se irredutível. Teve de ceder ao forte apelo popular e à iniciativa de um homem que fez – e cumpre – votos de pobreza e se posiciona em defesa do que é Bom, Belo, Justo e Perfeito.

Ao ampliar e estender os debates, além de priorizar a revitalização do rio antes da realização da obra faraônica, o Presidente se curva aos interesses do povo nordestino (até aqui tratado com profundo desprezo pelo Planalto) e do rio São Francisco mas poderosamente representados pelo gesto do Bispo Franciscano Dom Frei Luiz Flávio Cappio.

Que se trata de um capricho, está claro: o governo não dispõe de recursos para a saúde, a educação, o saneamento, as estradas e infra-estrutura, não há recursos para a recomposição salarial do funcionalismo público civil e militar (há greves nas Universidades Federais, no Banco Central e as esposas dos militares protestam), não há recursos para a previdência social e a fúria arrecadatória aumenta muito agora com a proposta de criação da tal “Super-receita”.

Mas há quase R$ 5 bilhões sobrando para a realização de uma obra que, como o próprio gesto de D. Frei Luiz deixa claro, está longe, muito longe de ser consensual.


Troca de Correspondência e duas Audiências

Transcrevo aqui duas cartas de Dom Frei Luiz Flávio Cappio. A primeira, dirigida ao Presidente da República informa dos motivos que o levam a tomar a decisão de entrar em greve de fome até a morte ou a alteração do capricho pessoal de Lula em levar adiante, com essa pressa toda, as obras faraônicas do rio São Francisco; a segunda, registrada em Cartório, informa de sua disposição.


Carta ao Presidente da República

Barra, 26 de setembro de 2005

Senhor Presidente

Paz e Bem!

Quem lhe escreve é Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM, bispo diocesano de Barra, na Bahia.

Tive a oportunidade de conhecê-lo por ocasião da passagem do senhor por Bom Jesus da Lapa, na Caravana da Cidadania pelo São Francisco, em 1994. Isto aconteceu pouco tempo depois que fizemos uma Peregrinação pelo Rio São Francisco, da nascente à foz, com objetivo de conscientizar o povo ribeirinho sobre a importância do rio para a vida de todos e a necessidade de preservá-lo. Fui-lhe apresentado por meu professor de teologia, Frei Leonardo Boff.

Sempre fui seu admirador. Participei ativamente em todas as campanhas eleitorais do PT, alimentando o sonho de ver o povo no poder.

Desde que o Governo Fernando Henrique apresentou a proposta de transposição do Rio São Francisco, fomos críticos acirrados deste projeto. Desde então acentuamos a necessidade urgente de revitalização do rio e de ações que garantam o verdadeiro desenvolvimento para as populações pobres do nordeste: uma política de convivência com o semi-árido, para todos, próximos e distantes do rio.

Esperávamos do senhor um apoio maior em favor da vida do rio e do seu povo. Esperávamos que, diante de tantos e consistentes questionamentos de ordem política, ambiental, econômica e jurídica, o governo revisse sua disposição de levar a cabo este projeto que carece de verdade e de transparência.

Quando cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto. Em meu gesto não existe nenhuma atitude anti-Lula neste momento delicado da vida nacional. Pelo contrário. Quem sabe seja uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo coração aquilo que a razão não alcança.

Tenha certeza, é um profundo testemunho de amor à vida.

Minha vida está em suas mãos.

Receba minha saudação fraterna e amiga,

Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM

 

 

Uma Vida pela Vida

Declaração

Em nome de Jesus Ressuscitado que vence a morte pela Vida plena, faço saber a todos:

1. De livre e espontânea vontade assumo o propósito de entregar minha vida pela vida do Rio São Francisco e de seu povo contra o Projeto de Transposição, a favor do Projeto de Revitalização.

2. Permanecerei em greve de fome, até a morte, caso não haja uma reversão da decisão do Projeto de Transposição.

3. A greve de fome só será suspensa mediante documento assinado pelo Exmo. Sr. Presidente da República, revogando e arquivando o Projeto de Transposição.

4. Caso o documento de revogação, devidamente assinado pelo Exmo. Sr. Presidente, chegue quando já não for mais senhor dos meus atos e decisões, peço, por caridade, que me prestem socorro, pois não desejo morrer.

5. Caso venha a falecer, gostaria que meus restos mortais descansassem junto ao Bom Jesus dos Navegantes, meu eterno irmão e amigo, a quem, com muito amor, doei toda minha vida, em Barra, minha querida diocese.

6. Peço, encarecidamente, que haja um profundo respeito por essa decisão e que ela seja observada até o fim."

Barra, Bahia, domingo de Páscoa de 2005

Dom Frei Luiz Flávio Cappio

R.G.: 3.609.650

C.P.F.: 291.828.835-72

"Quando a razão se extingue,

a loucura é o caminho".


Após se recusar a ouvir aos incessantes e constantes apelos da comunidade acadêmica nordestina, à voz da Razão e resistir até mesmo à pressão política de todos os que seriam lesados pela obra ensandecida, Lula dá um sinal – espero, do fundo de meu coração que sincero – de haver ouvido à voz do coração do Bispo. Num primeiro momento, através do Ministro das Relações Institucionais Jacques Wagner, Lula escreveu uma carta muito educada ao Bispo, mas não atendia à sua expectativa e foi rechaçada. Ele insiste num documento assinado pelo Presidente informando de sua intenção de adiar a Obra para depois do debate com a sociedade.

Deus ouviu as Orações de D. Luiz Flávio e de todos quantos por ele rezamos: após 10 dias de jejum em Cabrobó – PE, local para o qual está previsto o início da obra , o Bispo recebeu uma carta do Presidente da República, a ele entregue pelo Ministro Jacques Wagner. Dela constam as seguintes propostas:

1) o prolongamento do diálogo sobre o projeto do São Francisco;

2) o compromisso de prioridade para revitalização e saneamento do rio;

3) liberação de R$ 350 milhões para as obras de revitalização do rio;

e 4) a discussão do assunto numa audiência do Bispo com Lula em Brasília


Vigilância

Agora é acompanhar de perto o cumprimento das propostas trazidas a público pelo Ministério das Relações Institucionais, confirmada pela Pastoral de Comunicação da Arquidiocese de Salvador

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 06/10/2005

 

 




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