Eu torço contra o governo Lula!

 

O Presidente da República se queixa que tem gente torcendo para o governo dele dar errado.  Infelizmente faz uma extrapolação exorbitante e delira na direção antiga e tradicional, tornada célebre por Louis XVI – “L'Estat ces't moi!” – de que “meu governo é o meu país, portanto torcer contra o tipo de coisa que eu faço é torcer contra o Brasil”, quando é precisamente o contrário.

Torço contra o governo neoliberal e direitista de Lula por coerência ideológica: quero que o Brasil dê certo!

Enquanto Lula estiver acertando tanto na economia, beneficiando o grande capital especulativo internacional enquanto, na política interna, tiver a apresentar única e exclusivamente realizações de cunho assistencialista pequeno e localizado eu tenho de torcer para esse treco dar errado.

Enquanto Lula mantiver juros na estratosfera, fizer superávits primários capazes de fazer o FMI chamar a atenção por estar escorchando demais o próprio povo a ponto de ameaçar paralisar a economia, eu tenho de torcer para o governo dele dar errado.

Enquanto sobrar dinheiro para enviar aos lucros exorbitantes dos grandes especuladores e faltar para salários, educação, saúde, segurança e vigilância sanitária, eu tenho de torcer para dar errado!

Enquanto o governo Lula, em síntese, estiver acertando tanto para quem sempre foi privilegiado e conseguir ampliar o fosso entre os pouquíssimos mais ricos e os numerosos e cada vez mais pobres, eu torço para que dê errado mesmo!

Quem é patriota, lúcido e coerente, torce pelo Brasil. Torce pelos trabalhadores do Brasil. Portanto, torce contra o governo Lula. Custa a crer que, após três longos anos governando com e para a elite, haja seres humanos acreditando que Lula tenha alguma coisa a ver com os interesses genuínos da Classe Trabalhadora. Uma coisa é o governo de Lula e do PT. Outra totalmente diferente é o interesse real das pessoas reais, que vivem, amam e trabalham neste país.


E o São Francisco?

Terça-feira passada o ministro Ciro Gomes (ex-Arena, ex-PMDB, ex-PSDB, ex-PPS e hoje no PSB) participou do programa Observatório da Imprensa tentando justificar a realização apressada e açodada das obras de transposição das águas do Rio São Francisco. Ao debate compareceram ainda dois intelectuais ligados à geografia e aos interesses dos povos ribeirinhos.

Ficou claro que o governo até hoje não realizou o menor debate sobre o tema com quem realmente tem algo a dizer sobre o assunto. Ciro Gomes afirmou que “vem debatendo há três anos” com a Associação Comercial de São Paulo, com pecuaristas do Mato Grosso do Sul, com gaúchos e amazonenses. No Nordeste, parece terem acontecido algumas reuniões também em associações comerciais e industriais, além de associações de moradores a quem o “projeto” era simplesmente apresentado, sem debate algum. Jamais se convocou ou sequer se pensou em consultar as Universidades existentes na Região Nordeste do Brasil para o debate apropriado sobre o tema. Por que fogem dos intelectuais? Ficou claro ainda que, mesmo diante dos protestos de Dom Frei Luís Flávio Cappio, até pouco tempo atrás em greve de fome, nada será feito de concreto para atender as reivindicações dos ribeirinhos, das pessoas da Região. Uma pergunta crucial ficou sem resposta: “As águas poluídas do São Francisco serão despejadas em açudes salobros ao Norte do rio. Qual o impacto disto para as pessoas que supostamente seriam beneficiadas?”

Como é que um governo sem dinheiro para nada – salários ao funcionalismo, saúde pública, educação, saneamento ou mesmo vigilância sanitária – de repente quer despejar um rio de dinheiro numa obra faraônica que levará, no mínimo, 2 anos para ficar pronta? Qual a pressa de se começar uma obra deste porte sem que haja sequer um Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto Sobre o Meio-Ambiente elaborado (menos ainda aprovado!)?


Respondendo abstratamente a problemas abstratos

Há tempos as universidades se afastaram da realidade e buscam somente soluções abstratas a problemas abstratos. Em raros casos ocorre de os Centros de Excelência Acadêmica se debruçarem de maneira séria à busca de solução aos problemas concretos que assolam o país, a exemplo do que ocorre em outras Nações do mundo.

Não foi um geógrafo ou um cientista de uma universidade nordestina – sabedores que são ou deveriam ser da situação concreta do povo de sua Região – a chamar a atenção para o problema do Rio São Francisco: foi um homem ligado ao clero!

Por aí a gente mede a indigência intelectual a que estão relegadas as mais elevadas Instituições Educacionais no país governado por um cidadão que se orgulha de sua ignorância...


Grampeando

Tancredo Neves jactava-se de jamais tratar de assuntos relevantes ao telefone. “Eu já fui Ministro da Justiça”, justificava. Humildemente, como alguém que já trabalhou com telefonia, conheço com larga margem a simplicidade técnica de se montar escutas telefônicas, seja em aparelhos (escutas mais grosseiras e amadorísticas), seja nas linhas (mais sofisticado e arriscado). Paranóia ou não, jamais converso ao telefone assuntos que não possa tratar em voz alta em praça pública.

Soube por um Amigo, ainda na ativa da FAB, que é exageradamente simples, hoje em dia, efetivar-se um grampo muitíssimo mais sofisticado que consiste em monitorar um determinado ambiente de tal forma que tudo o que se fala num salão ou auditório pode ser ouvido e gravado a quilômetros de distância. Cabe ter isto em mente sempre que se for tratar de assuntos sigilosos.

Dito isto, cabe ressaltar que se trata de prática ILEGAL. Que o governo Lula esteja preocupado em ouvir as conversas telefônicas do Presidente da Comissão de Ética da Câmara, de Senadores e Deputados oposicionistas e sabe-se lá de quem mais, além de, repita-se ILEGAL, é mais que anacrônico e inoportuno: é de uma inutilidade monumental! Não se melhora a sociedade ouvindo por trás das portas ou bisbilhotando conversa alheia. Com todos devidamente prevenidos com relação a esta prática idiota, os arapongas oficiais ou oficiosos somente terão a reportar a seus chefes precisamente o que desejam ouvir.


Febre Aftosa

Não é necessário que sejamos especialistas em zoonoses para sabermos que a desativação de uma série de serviços mesmo que precariamente existentes até o ano 2002 – o controle das fronteiras do Brasil por parte do Exército, o incentivo econômico e a fiscalização rigorosa da aplicação de vacinas – foi fator preponderante para o ressurgimento de uma doença até então controlada e fazer com que a carne brasileira, de repente, caia brutalmente de valor no mercado internacional.

Não houve recursos para controlar as fronteiras, não houve recursos para controlar a qualidade e a aplicação das vacinas ao gado porque o governo está mais preocupado em fazer um superávit primário recorde: guardar dinheiro para garantir aos especuladores que o seu lucro estará garantido, não importa a que preço de sacrifícios humanos aos brasileiros.

Não há alternativa: o governo precisa parar de “acertar” deste jeito. Eu torço para que este governo erre! Tantos “acertos” estão acabando conosco!


Superávit de Incompetência

O Fundo Monetário Internacional exigia o cumprimento de uma meta de superávit primário em torno de 3% do PIB. Valor que o Brasil deixa de empregar onde o dinheiro é necessário para garantir ao sistema financeiro internacional que a segurança de suas aplicações está assegurada. Lula, numa subserviência abjeta, aplicou um arrocho inédito na população brasileira, a tal ponto que não temos a menor idéia de onde é que vão parar nossos impostos. Ou, por outra, temos, mas nos rebelamos: cofres de banqueiros, bolsos de parlamentares venais, benesses e sinecuras aos bajuladores de plantão... Este governo situa-se à direita do diabo, não compreendo onde é que se vê algum traço de esquerda nas práticas (o discurso permanece o mesmo, apenas mais chulo, talvez numa tentativa de se aproximar mais do lumpemproletariado) de Lula e sua farândola.

Nunca é demais lembrar: dos cerca de R$ 22 bilhões autorizados pelo Congresso Nacional para aplicação nos diversos setores da Administração Pública Federal, menos de 1% deste montante foi efetivamente utilizado. A maior parte foi “contingenciada”. Em outras palavras, o Presidente da República proibiu os ministérios de utilizar os recursos da forma que apresentou ao Congresso para reforçar o caixa do superávit primário.

Como resultados óbvios vemos os casos gravíssimos de Febre Aftosa por falta de fiscalização nas áreas de risco e, mais recentemente, de “Febre Maculosa”, um quintomundismo anacrônico ressurgindo no Rio de Janeiro: uma praga mortal transmitida por carrapatos...

Nos hospitais as mães “morrem de parto” como acontecia em fins do século XIX, início do XX. O que os jovens aprendem nas escolas retrata-se em seus escritos capengas na Internet e na criação de uma geração de deficitários funcionais. O Estado tenta se omitir do provimento de Segurança aos cidadãos. As estradas esburacadas, o desemprego em níveis desesperadores criando um cortejo de misérias humanas comuns aos momentos mais tristes de todos os países do mundo: proliferação da mendicância, da prostituição, da desesperança, enfim, entre aqueles que viam no PT e no Lula a possibilidade de ver concretizada alguma esperança. Sofremos uma traição brutal.


A esperança de Lula está no Lumpem

Lumpemprolatariado, pessoas abaixo da linha da pobreza: desempregados, analfabetos, mendigos e miseráveis mantidos assim como reserva eleitoral estratégica para governos fracos.

Somente nesta categoria, hoje, Lula vence com folga uma eventual votação para a reeleição segundo as mais recentes projeções. Trabalhadores, classe média, intelectuais incluídos, estão profundamente desiludidos e desesperançados de um governo que faz do assistencialismo de baixíssimo porte a sua principal força eleitoreira.


“Lula ordena aos ministérios que gastem mais”

Definitivamente estão tratando o respeitável público como a  rematados idiotas. O governo passa 10 meses proibindo os ministérios de gastar para que se priorize o superávit primário e, no apagar das luzes do ano, próximo às férias escolares e a um provável recesso parlamentar autoriza gastos? Alguém acredita que algum ministério – em sendo esta uma ordem “pra valer” e não somente peça de mídia – teria como gastar em menos de um mês o que foi proibido de gastar em mais de 10? Digo eu, com as finalidades intrínsecas a cada ministério. Com a esbórnia do suborno a parlamentares ou aparelhamento do PT, eles têm demonstrado competência de sobra. Por isso precisa dar errado.

As hipóteses: Lula é um imbecil, Lula julga que governa um país de imbecis ou ambas...

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 03/11/2005

 

 




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