O cansaço e o jeitinho brasileiro


No ar uma tremenda sensação de fastio, de cansaço físico e mental. Não são só os petistas e aliados do governo que não agüentam mais ouvir falar na crise interminável que produz escândalos diários. O brasileiro comum também está exausto desta crise. Não meramente de “ouvir falar em crise”, como os petistas e acólitos, mas da própria crise, desta crise insuportavelmente interminável que a cada dia produz um novo escândalo e a todos nós cansa muito.

Só nesta semana mais uma série de temas controversos – para dizer o mínimo – dominaram a mídia: a Coteminas (empresa de propriedade do Vice-Presidente da República) abriu um crédito no valor de R$ 12 milhões para o Partido dos Trabalhadores elaborar camisetas com vistas à campanha política de 2004. Deste valor, somente recebeu, e em espécie, em moeda sonante, R$ 1 milhão que, misteriosamente, não consta da contabilidade do PT. Surge o bode expiatório para todos os pecados do PT assumindo mais esta. Delúbio Soares, outrora poderoso tesoureiro do mais rico partido político do país, informa que aquele recurso também foi oriundo do “caixa dois” do Partido – tese absolutamente descolada da realidade: os recursos contabilizados e não contabilizados que já foram revelados não incluem este montante. De onde vem esse diabo desse milhão? Bom, agora que a propina e a esbórnia virou praxe e norma, aproveitando que ninguém agüenta mais desculpas esfarrapadas, eles já nem se preocupam mais em inventar algo minimamente plausível... E quem lavou este dinheiro sujo do PT? Justamente o Vice-Presidente da República que, segundo deputados federais do PL (partido pelo qual o Vice chegou ao cargo que ocupa) se recusava terminantemente a abrir linhas de crédito para que membros do próprio PL confeccionassem suas camisetas na Coteminas. Vá entender...


Severino Cavalcanti Ministro das Cidades

Nominalmente, é Márcio Fortes de Almeida (do Partido dito Progressista) que, por arranjo político com vistas a alargar a base de sustentação do governo, ocupa atualmente a pasta das Cidades. Na prática, a pouca verba que a Fazenda destina àquele ministério das sobras do que envia para a ciranda financeira, é gerida por ninguém menos que o ex-deputado Severino Cavalcanti, aquele que renunciou a seu mandato para evitar a cassação mas a legislação brasileira permite que um político, mesmo cassado ou sob grave suspeição, ocupe cargo público – desde que não eletivo, ele pode ser indicado pelo eleito, o velho “jeitinho brasileiro”...

Dispõe de um gabinete no Ministério das Cidades, despacha com prefeitos de sua base de sustentação e já está em campanha para voltar à Câmara nas próximas eleições com uma votação expressiva oriunda do fisiologismo que pratica no Estado de Pernambuco.


Dirceu no Palanque de Lula

Perguntado se teria coragem de levar José Dirceu ao Palanque quando estiver em campanha pela reeleição Lula respondeu “por que não? Ele foi cassado injustamente, não houve nenhuma prova apresentada contra ele e é um quadro importante do Partido”. Bom, ninguém emitiu recibo de propina concedida ou recebida e, com exceção de Roberto Jefferson, ninguém assumiu sobre si a culpa por qualquer desvio de recursos.

Segundo Jefferson, Dirceu havia prometido algo em torno de R$ 12 milhões em troca do apoio do PTB à campanha de Marta Suplicy em São Paulo e, destes, somente pagou – sempre em dinheiro, sem documentação comprobatória de origem – R$ 4 milhões. Jefferson se viu assediado pelos muitos correligionários que fizeram despesas contando como certo aquele aporte de divisas que jamais chegou – somente uma parte, sempre segundo Jefferson. Por confessar que recebeu este dinheiro em seu nome, como pessoa física (caso contrário haveria o risco de se perder o registro do PTB), o deputado carioca foi cassado.

Voltando ao caso de Dirceu, gerente do esquema do Mensalão – o tal que “jamais foi provado” mas é tão tangível quanto o ar que se respira no Planalto Central do Brasil – sempre agindo sob a chefia direta do Presidente da República – foi cassado pois a montanha de evidências contra ele foi efetivamente devastadora, definitiva, avassaladora.

Nesta linha de raciocínio, Lula está certíssimo! Deve levar ao Palanque com ele todos os que o apoiaram e trabalharam pela sua vitória em 2002 e pela vitória de petistas (embora com menor sucesso) nas campanhas municipais de 2004: Paulo Maluf, Carlos Cachoeira, José Dirceu, Waldomiro Diniz, Severino Cavalcanti, Henrique Meirelles, Sérgio “Sombra”...

Isso me lembra de certa feita em que proferi uma Palestra no prestigioso Instituto Abel, de Niterói, sobre os Direitos Humanos e contra a Pena de Morte. Uma moça muito educada e muito bonita, de seus 16 para 17 anos ergueu-se trêmula e perguntou: “mas professor, se não tivermos a Pena de Morte, os bandidos acabarão governando o país.” Eu disse algo como: “Minha cara, tenho uma péssima notícia para te dar...”

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 08/12/2005

 

 




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