Às crianças do Futuro

Texto especialmente elaborado para a Letralivre, Revista de Cultura Libertária, arte e literatura.

“As crianças do Futuro, por nascer, saberão que nos tempos do passado, como crime o doce amor era tratado”
Summerhill – A. S. Neil


Você que me lê aí de algum lugar do Futuro, saiba que houve um tempo em que o lucro dos bancos era mais importante que aquele das empresas mas quem de fato produzia os bens comercializados tinha seu valor aviltado por uma coisa chamada “salário”.

Palavras estranhas a você, vamos decodificar uma a uma, na medida em que nossas diferenças idiomáticas o permitam. No momento mesmo em que escrevo estas linhas as comunicações rápidas pela Internet promovem uma modificação severa no idioma português fazendo surgir o que muitos supõem ser um novo dialeto.


Lucro

Conceito inexistente antes da época capitalista, assim como o é na sua, refere-se à diferença entre o valor efetivamente real de um determinado bem e o quanto o comerciante cobra por ele. Naturalmente, para não ficar muito antipático, os ideólogos do Lucro, por ele bem remunerados, explicam o fenômeno com coisas como “frete”, ou seja, o transporte de um produto de um lugar para outro, o manuseio, o risco de se colocar o produto em exposição sujeito a roubos e furtos (verbetes naturalmente estranhos a você, explicarei ainda nesta carta, senão vai na próxima...) e outros perigos do mundo civilizado – por vezes fico pensando como é que vocês chamam o tipo de organização societária do Futuro...


O fracasso da Civilização Ocidental

Nossa Civilização começou a perceber os primeiros sinais de seu fracasso em 1946, durante o episódio histórico do Julgamento de Nuremberg. Ali, quatro grandes potências do mundo: Estados Unidos da América, União Soviética, Grã Bretanha e França impuseram aos derrotados nazistas um julgamento cuja parcialidade foi permanentemente questionada. Os nazistas haviam cometido crimes contra a humanidade de tal monta que por muitos séculos ainda se cogitará em saber como foi possível a uma nação tão sofisticada e culta como a Alemanha sucumbir àquela Destruição da Razão: genocídio, torturas, censura prévia, prisões preventivas, preconceito racial, discriminações ideológicas, restrições a direitos humanos... Uma lista interminável de crimes pelos quais, naquele julgamento, tirando dois suicídios no presídio de Bad Mondorf (Robert Ley, logo ao início dos procedimentos enforcou-se e Herman Göring conseguiu ingerir uma cápsula de cianureto, presumivelmente a ele passada por um oficial estadunidense na véspera de sua execução por enforcamento) 12 foram condenados à morte na forca, 1 foi condenado a prisão perpétua (Rudolf Hess) e 6 condenados a períodos diversos de encarceramento em Spandau. Dois banqueiros (Hjalmar Schacht e Von Papen) que subvencionaram a chacina foram espantosamente absolvidos devido à grande pressão das três potências capitalistas.

Após a morte de Rudolf Hess em Spandau, a 17 de agosto de 1987 o presídio foi demolido e, no local, foi construída uma Sinagoga.

Dentre muitos ouviu-se então o clamor de tratar-se meramente de uma questão de “ vae victis ” – ai dos vencidos. Um poder superior punindo as lideranças de um regime que derrubaram. Muitos defensores dos nazistas apontavam dedos acusadores a seus algozes e informavam “ tu quoque ” – você também fez igual – caso da Rússia que massacrou pelo menos uma aldeia polonesa; caso dos britânicos que destruíram completamente pelo menos uma cidade alemã, Dunquerque. E o que dizer dos EUA que despejaram uma bomba atômica em Hiroshima e outra em Nagazaki matando milhões de seres humanos e deixando a terra pestilenta por décadas, sendo que a guerra já estava perdida para os japoneses? Um gesto de brutalidade desnecessária, que o Pentágono justificou como uma “demonstração de músculos” para a União Soviética, dando início à Guerra chamada de “Fria”, mas que foi quentíssima em vários pontos do globo como Vietnã, Argélia, Oriente Médio e América Latina.

Neste ponto se percebe o fracasso da civilização ocidental: o ser humano não aprendeu a ser amigo do ser humano, a grande potência hegemônica responsável pelo mais importante julgamento por crimes contra a humanidade (os EUA) não respeita ou sequer reconhece a autoridade do Tribunal Internacional das Nações Unidas e as atrocidades cometidas pelos nazistas localmente foram repetidas pelos descendentes de Abraão contra os Palestinos; pelos estadunidenses contra vários diferentes povos do mundo (vietnamitas, coreanos, chilenos, salvadorenhos, hondurenhos, panamenhos, etc.); pelos britânicos contra outros (indianos, sul-africanos, ruandeses, etíopes, egípcios, libaneses, sírios...) por franceses contra vietnamitas e argelinos; enfim, a lista é infindável.

Ao término do século XX o contraponto do capitalismo ortodoxo, uma forma híbrida de capitalismo com economia planificada, chamado à época de “socialismo real” foi  sufocado por fora pela corrida armamentista – que desviava sua concentração de esforços do bem-estar do povo para a área da defesa contra o agressor capitalista ortodoxo – e internamente por uma malha de corrupção em grande medida afetada pela primeira contaminação.

Chegamos a um mundo unidimensional, com o pensamento único. O início do século XXI no mundo inteiro guarda uma similitude surpreendente com a Idade Média Européia, a Idade das Trevas, durante a qual se proibia a ciência, se condenava pesquisadores e se dizia que “Fora da Igreja não há salvação nem perdão”. Mesmo assim, com todos os terrores da Santa Inquisição, muitos luminares deixaram sua marca para o Futuro.

Neste início de século XXI mudaram as palavras e os trajes que as pessoas usam, além do tipo de punição aplicada ao rebelde, mas a mensagem é precisamente a mesma. Fora do maior poder constituído não há salvação nem perdão. “Não há esperança fora do capitalismo e da globalização estadunidense”. É uma condenação selvagem que a todos sujeita e, de novo, indica a falência do projeto civilizatório do ocidente.


Os Bancos

Bancos são grandes empresas privadas (de um único dono ou de um pequeno grupo de espertalhões) que concentram a hegemonia da circulação do papel moeda – coisa sem a qual não se vive nestes tempos sombrios – que emprestam dinheiro a juros e têm poderes totais sobre as transações financeiras das pessoas. Após um período de proibição teológico, a prática da usura tornou-se praxe no mundo nestes tempos sombrios e os bancos, além de lucrarem pavorosamente com a usura, cobram de suas vítimas, digo, clientes, por todas as atividades que pratica: tarifa pelo uso da conta corrente, tarifa por deixar de usar a conta corrente, tarifa para emissão dos papéis que se transformam em dinheiro (chamados de “cheques”), tarifas para o banco dizer quanto a pessoa tinha em conta ou quanto devia ao banco, tarifas por estar presente ou por ausentar-se da agência... Enfim, no Brasil dos tempos de Lula, são os mais lucrativos empreendimentos.

Os trabalhadores dos bancos, responsáveis diretos pela enorme lucratividade das empresas, recebem uma certa quantidade de papel moeda por mês – sempre depositada em sua conta bancária, pela qual também pagam tarifas e impostos de praxe – que recebe o título de “salário”. Como o salário nunca foi calculado com base no lucro das empresas ou nas necessidades concretas dos seres humanos, os trabalhadores, por mais que se esmerem, recebem sempre salários miseráveis.


Os Salários

Salário é uma quantidade de papel moeda – valor universal de troca no tempo em que se cultua o deus-mercado – concedido ao trabalhador por um mês de trabalho. Nada tem a ver com a lucratividade da empresa ou com os preços dos produtos que consome. O valor dos salários é sempre calculado com base em coisas que fogem à compreensão do comum dos mortais. É como se os economistas – uma casta especial de pessoas regiamente remuneradas para manter viva a propaganda a favor do capital, do lucro e dos juros – consultassem os astros, o vôo dos pássaros ou as entranhas de animais sacrificados, desde que o resultado do cálculo “científico”, “macroeconômico”, para o reajuste dos salários sempre fosse menor que o necessário a manter uma sobrevida minimamente condigna.


Hegemonia total do pensamento único

Durante o tempo de duração do capitalismo só é admitido como válido o pensamento que o corrobore. Todo o pensamento voltado ao humanismo, ao amor ao próximo, à superação do estado de guerra de todos contra todos deste sistema medíocre e mediocrizante é tido como desviante. É anatematizado e seus pensadores não encontram eco a suas palavras.

Utilizam a palavra democracia como sinônimo de capitalismo, seja essa (democracia) praticada por fundamentalistas religiosos, militares torturadores ou lacaios dos grandes.

Pensadores que voltam aos grandes valores dialéticos da Grécia Clássica, ao verdadeiro cerne da palavra democracia (governo do povo, para o povo e pelo povo) são olimpicamente desprezados, particularmente nos gigantescos templos erguidos à cultura do capital chamadas de “universidades”.

Para garantir a completa hegemonia do pensamento único os pensadores humanistas – raríssimos – jamais são recompensados por seu trabalho, frequentemente são severamente punidos, mas sempre de maneira sub-reptícia, pois são tempos de escuridão, falsidade, traições e mentiras. Aos lacaios do pensamento único, hegemônico e totalitário concedem-se as recompensas da cornucópia da fartura. Ao contestador, o látego do desemprego, o ferro em brasa do ostracismo, as tenazes da mordacidade ferina de pseudo aliados: “concordo com suas idéias, mas elas não te dão sustento não é mesmo?”

Que vocês aí, no Futuro, jamais se esqueçam de que vivemos num mundo assim quando pensarem em nossas fraquezas e nas dificuldades que tivemos.

Lázaro Curvêlo Chaves – 30/01/2006

 

 




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