Era do desencanto

 

Quando começou seu governo, Lula contava com o cacife de mais de 5 milhões de votos; o imaginávamos porta-voz da Esperança no Brasil. O mote “a Esperança venceu o Medo” era seguidamente repetido. Hipnoticamente repetido.

Havia uma Esperança. Mais de 5 milhões de brasileiros acreditaram e foram lesados. A máquina governamental foi tomada pela parcela menos representativa e mais conservadora dos políticos eleitos. Ampliou-se o leque a tal ponto que a presidência do Banco Central do Brasil foi entregue a um dos megaespeculadores que há anos lesam nossa economia, fazendo com que, na prática e ao contrário do interesse nacional neste momento, o Banco Central funcione como uma entidade privada sob completo controle de um único gângster.

Já no primeiro ano, criou um “núcleo duro de governo” composto por ele mesmo, José Dirceu, Antônio Palocci e Luiz Gushiken que jamais admitiram o contraditório. A seguir expulsou um grupo de esquerdistas autênticos do PT, como a senadora Heloísa Helena e a deputada federal Luciana Genro, deixando claro a todos: eleito para mudar o Brasil, Lula da Silva mudou foi de lado! A coisa toda vai num crescendo e, de irracionalidade em irracionalidade, faz pior, muito pior ao Brasil do que Collor de Mello havia feito: com vistas a conter a inflação Collor seqüestrou a poupança dos brasileiros, no afã de se manter no poder sem projeto político algum, Lula seqüestrou-nos a Esperança!

Segue-se a necessidade do apoio de políticos fisiológicos e, para isso, remunera-se parlamentares de tempos em tempos para votar como o governo determina sem questionar absolutamente nada: incapaz de articular ou sequer apresentar um projeto político coerente, o governo remunera um crescente exército mercenário. A CPI dos Correios comprova este fato: houve mensalão e localiza corruptos e corruptores, embora não chegue ao presidente da República.

Lula segue com seu discurso delirante, repetitivo: “nunca antes nesse país...”, por exemplo, se tinha enviado um astronauta ao espaço – faltou dizer que custou 10 milhões de dólares usando somente tecnologia estrangeira e voltado miseravelmente à propaganda governamental. Comparar a velocidade do crescimento de plantinhas em condições sem e com gravidade em linha com uma escola e participar de uma teleconferência com o presidente da República, além de obviamente funcionarem como peças de propaganda governamental contribuem para o nosso avanço tecnológico exatamente em quê?

Não fala à razão. No mais escrachado estilo populista e demagógico fala miseravelmente à emoção. São perenes apelos emocionais absolutamente vazios de significado, sem o menor contato com a realidade. Ele não está discursando para o eleitor médio do Sudeste brasileiro, politizado, que lê jornais e revistas: está discursando para aquelas pessoas que não lêem jornais nem revistas, que mal se informam pela TV – frequentemente nem isso – falando de um Brasil que só existe em seu delírio... O único programa com grande audiência que ainda merecia alguma credibilidade neste momento, o “Jornal da Record” apresentado por Boris Casoy, foi brutalmente agredido pelo Estado Brasileiro: exigiram e obtiveram a cabeça do âncora, apresentada numa bandeja de prata pelos “bispos” da Igreja Universal, aliados de Lula...


Lula cada vez mais isolado

O “núcleo duro” do governo acabou de se desmoronar com o afastamento de Antônio Palocci, coincidentemente ou não, no Dia do Circo. Como a maioria dos membros deste governo, o queridinho dos mercados e da oposição também caiu por corrupção e autoritarismo. No mesmo dia, praticamente na mesma frase, o mesmo Lula que se disse traído por Palocci teceu a ele elogios rasgados quando da transmissão do cargo ao Manteiga. Manteiga ficou apagadinho e esquecido enquanto todos bajulavam os supostos “acertos” de Antônio Palocci, compostos de fato por dois erros gravíssimos e uma mentira. Segundo a propaganda monocórdia do governo, ecoada entusiasticamente pela oposição de direita, “o risco - Brasil caiu, o preço do dólar caiu e a inflação está sob controle”.

Vamos ver isso de perto: o risco - Brasil é avaliado pelo J. P. Morgan, banco privado estadunidense para o qual a mais notória nação terrorista do planeta, permanentemente em guerra contra alguém em algum lugar do mundo, tem risco zero e suas colônias são avaliadas segundo sua capacidade de transferir recursos públicos para os especuladores e banqueiros internacionais. A partir desta constatação deveríamos perseguir a meta do mais elevado risco-país possível, que na prática significaria mais paz e mais investimento de recursos nacionais em benefício do público ao invés da violência, da injustiça social e da transferência de recursos da produção para os jogadores da banca internacional.

Com as mais elevadas taxas de juros do planeta Terra e a segurança de que todos os investimentos especulativos serão regiamente remunerados, se atraiu uma quantidade pavorosa de dólares para o Brasil, realmente, e isto faz com que seu preço fique lá em baixo. Desde quando isso passou a ser considerado “acerto”, meu Deus do céu? Para quem gosta de falar aquele palavrão que justifica todo esse lixo, a tal de “macroeconomia”: sempre se soube que a segurança monetária de um país deve ser medida pelo nível de poupança interna. Quem ainda tem caderneta de poupança? O Brasil está cheio, lotado de dinheiro (para pouquíssimos) que se evadirá rapidamente ao menor esboço de tentativa de nacionalização ou retorno ao patriotismo. Enquanto se governar para banqueiros e se perseguir caseiros nossas chances de sucesso ficam escassas.

Finalmente, “inflação sob controle”? Como assim? Acaso estamos comprando coisas mais baratas e ganhando mais dinheiro? Há pleno emprego no Brasil? Controle da inflação às custas do nosso sangue, suor e lágrimas? Controle da inflação às custas de rifar nossa esperança? Isso é motivo de vergonha, não de ufanismo! O combate à inflação se sobrepôs à vida humana e se faz às custas do maior arrocho, maior desemprego e juros mais elevados do mundo. O Brasil não conseguiu controlar a inflação sem sacrificar a gente que vive, ama e trabalha. Há algum motivo para comemoração nisso?


Como é que pode?

Que um torneiro mecânico isolado tome o partido dos patrões e defenda seus interesses, contrários aos da classe trabalhadora, embora doloroso, chega a ser compreensível.

Irracional e incompreensível é que um agrupamento composto por líderes sindicais, intelectuais, artistas, ex-guerrilheiros e políticos com mais de 20 anos de militância pela esquerda, em defesa dos trabalhadores se preste a participar de um governo cuja política econômica, lesiva ao povo brasileiro, é uma mera continuidade da Era Maldita que herdaram e tão lucidamente criticavam.

Eleitos pela maioria e discursando para a maioria, governam para menos de 0,01% da população, justamente os poucos detentores da maior parcela da riqueza nacional, como os grandes banqueiros e megaespeculadores. Isto levou por um lado ao protesto – rapidamente punido – de antigos líderes da verdadeira esquerda que não se prestavam a convalidar a farsa, por outro à maior parte dos intelectuais orgânicos da classe trabalhadora a efetivamente se afastar daquela proposta.

Havia ainda uma Esperança: a Ética. Afinal, o grupo que chegou ao poder em 2003 passou a maior parte de sua existência pregando contra as práticas conservadoras, corruptas e corruptoras do Brasil. Já no segundo ano aquela Esperança começou a ser torturada e vem sendo perversamente maltratada até o presente. São inúmeras as atrocidades contra a Esperança, fiquemos apenas nas duas mais retumbantes no cenário televisivo: o chefe de gabinete do Ministro da Casa Civil negociando propina com um contraventor e, novamente, um alto funcionário dos correios embolsando propina em nome do deputado Roberto Jefferson que, até para “não cair sozinho”, denunciou a prática do “mensalão”, devidamente comprovada pela CPMI dos Correios.

Como eles se defendem? Como sempre se fez no Brasil, buscam desqualificar o denunciante, como o caseiro da casa de lobbies e diversão freqüentada por Palocci e que, perseguido pelo governo, teve o seu sigilo bancário violado e segue sob o ataque cerrado da máquina governamental autoritária que precisa a qualquer custo plantar nele a pecha de estar agindo sob o comando da oposição de direita quando ele mesmo, na sua ingenuidade pediu também a “quebra de seu sigilo eleitoral” para descobrir em quem votou. E conclui: “um trabalhador, que acreditou e votou num trabalhador e veja só o que está acontecendo comigo”.

Inovando, criam o conceito de crime solidário: “isso sempre se fez no Brasil”. Eleitos para mudar o Brasil, adotam as mesmíssimas práticas, mudando, isso sim, de lado! E tome inovações terminológicas. É a novilíngua petista: “caixa dois, propina, suborno, fruto de roubo ou corrupção” se transforma em “recursos não contabilizados”; “mentira” se transforma em “imprecisão terminológica”; “transferência de recursos dos pobres para os ricos através de juros e impostos mais altos do mundo” se transforma em “redistribuição de renda”.

Ficamos aí com esse clima de apatia, de negatividade, de descrença generalizada “nos políticos” e de pessimismo quanto ao futuro, que só serve à continuidade das coisas como estão. Tínhamos sonhos e esperanças; estas foram impiedosamente massacradas. Ainda assim é necessário seguir. Continuar a continuar. Pessoalmente torço para que a Frente Classista e Socialista cresça ainda mais. Já conta com PSTU e PCB. Ciente de que vários outros partidos outrora de esquerda também mudaram de lado, anseia pelo apoio daquela reminiscência do PT ético e ideológico, hoje reduzida ao PSOL. Idealmente, com Heloísa Helena para Presidente da República. Com a palavra o PSOL e seus membros mais recentes, egressos às pressas do PT para não perder o calendário eleitoral, mas ainda refratários à verdadeira esquerda e sequiosos por uma aliança com o PDT que lhes dê “mais tempo na televisão”.

Termino estas linhas citando um homem íntegro e honrado, a quem muito admiro, Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL – SP que, há poucos dias declarou: “No processo de decisão atualmente em curso sobre as alianças do partido, defenderei a unidade dos socialistas – ou seja, a construção de uma grande frente de partidos e movimentos da classe trabalhadora para enfrentar o imperialismo e a burguesia. Precisamos dessa frente classista para deter o processo de regressão colonial do país.”

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves 01/04/2006

 





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