Deslocamento do debate

 

Diante de tantos escândalos corremos o risco de perder de vista o cerne da questão, o centro do problema, o debate que efetivamente precisa ser feito e que se resume numa questão básica: o modelo econômico rapinante, pró-mercado e antipovo é o único viável para o Brasil ou há alternativa?

Deslocar o debate para o nível moral – tentação exageradamente forte num momento com tantos descalabros e descaminhos no destino dos recursos públicos – tende a deixar-nos limitados ao Fla X Flu entre os tucanos e o neotucanato petista.


Superávit primário ou dignidade humana?

Manter em reserva um montante elevadíssimo de recursos para garantir os elevadíssimos lucros dos bancos num quadro de desemprego e economia praticamente paralisada tem sido a opção dos banqueiros internacionais que tomaram conta da economia dos países periféricos ao capitalismo central como o Brasil.

Surpreende que, no caso brasileiro gente outrora bem vista e bem intencionada como FHC e Lula da Silva se hajam colocado a serviço do mesmo encaminhamento econômico que passaram boa parte dos anos de suas vidas criticando – FHC em teses acadêmicas e Lula em seus discursos aos trabalhadores – não é diferente do que ocorreu na Argentina, no Chile e no Uruguai, por exemplo, onde líderes outrora progressistas capitularam diante do neoliberalismo, sempre rejeitando esta expressão, mas aprofundando suas práticas.

De vez em quando vemos entre intelectuais, estudantes e artistas o questionamento altamente pertinente e incômodo: por que estes cidadãos capitularam? Será que as pressões do poder conduzem a tal ponto que não haja alternativa?

Não. Trata-se de uma opção de classe, oriunda da limitação de sua consciência possível. FHC foi seduzido pela vaidade principesca do cargo o exerceu na prática como um chefe de Estado, nunca como chefe de Governo – que foi transferido à área econômica, em defesa do capital especulativo internacional, sob o comando de Armínio Fraga e Pedro Malan. Lula se fatigou de ser derrotado em eleições e se decidiu a ser eleito “a qualquer custo”. Já no momento das alianças causou desconfianças quanto ao tipo de encaminhamento que daria, mas muitos (como eu mesmo) apostaram que seu passado de líder sindical e as alianças de esquerda que o acompanhavam o fariam encaminhar adequadamente o processo político no Brasil.

Quando escolheu para a presidência do Banco Central mais um especulador, Henrique Meirelles – este só não sofreu impeachment porque não interessou à oposição de direita, por sinal, motivos não faltam! – todas as esperanças foram perdidas. Ficou claro que faria mais um governo para os bancos, contra a maioria da população brasileira, mesmo jurando por todos os juros que governaria para os mais humildes. A estes relegou uma esmola miserável paga pelo Estado, suprema vergonha.


A Esquerda em busca de novos caminhos

Muitos brasileiros passaram anos de suas vidas acompanhando de perto a vida pública e a atuação parlamentar de lideranças petistas como José Genoíno, José Dirceu, Lula da Silva, Aloízio Mercadante Oliva ou mesmo do PC do B como Aldo Rebelo e Jandira Feghali, gente, enfim, outrora insuspeita de transigir com o capital, menos ainda de capitular aos interesses dos banqueiros em detrimento dos interesses do povo brasileiro!

O choque é tão grande e gritante; o abandono das bandeiras históricas tão chocante; a traição tão cruel que muita gente, até hoje, tem dificuldades em acreditar que sejam verdadeiros os fatos que estão ao nosso alcance no cotidiano. Não somente na mídia, mas principalmente nos preços e salários, no poder aquisitivo, na vida cada vez mais difícil e na manipulação descarada dos dados estatísticos que estamos vivenciando. Dia desses mesmo estive num estabelecimento comercial em que precisava me decidir se era possível gastar mais dinheiro para levar o mesmo de sempre ou se reduzia o meu consumo de bens básicos e, ao me queixar a um vizinho de fila, ouvi uma discordância: “não vê que os preços estão mais baixos?” – Não vejo. Até porque não estão mesmo! Incrível haver quem não consiga perceber isto!

Depois que o PT expulsou os autênticos e muitos intelectuais saíram com profunda tristeza e mágoa do Partido, alguns outros foram, aos poucos, também despertando. Deste amálgama principalmente nasce o PSOL. Eu mesmo não segui este caminho, ainda não sinto confiança nele. Não é possível confiar em partidos de cúpula. E o único partido de massas, ideologicamente coerente e de esquerda que ainda existe é o PSTU. O PSOL precisa antes mostrar a que veio. Um teste será a sua política de alianças. O PSTU quer uma Aliança de Esquerda. A direita do PSOL prefere aliar-se aos burgueses do PDT. Saberemos se o PSOL veio para somar à esquerda ou se potencialmente é um “novo PT” a partir da definição de sua política de alianças.


Como podemos ter certeza de que não surgirá um “novo PT”?

Esta é outra preocupação que perpassa a população preocupada em encontrar uma alternativa à política econômica dos bancos, defendida pelos dois partidos hegemônicos, PT e PSDB. Sim, o PSDB já foi visto como um partido de centro-esquerda antes de incorporar a totalidade do modelo econômico neoliberal. O PT era um partido de esquerda, mas, ao chegar ao poder, foi ainda mais longe que os tucanos na aplicação do modelo neoliberal à nossa economia. Qual a segurança que podemos ter de que outros partidos e propostas (PSTU, PSOL, etc.) não correrão o mesmo risco?

Em primeiro lugar, é muito bom que esta questão se coloque. Indica claramente que uma boa parte da opinião pública está ciente da traição a que foi submetida.

Certeza, em política, é praticamente uma impossibilidade lógica. Cabe o velho adágio da eterna vigilância. Temos de acompanhar passo a passo, exigir compromissos claros e ter a definição explícita de que o dinheiro de nossos impostos será destinado ao resgate da dignidade humana do brasileiro, não mais a banqueiros, menos ainda a propinas ou corrupção!

Cabe romper claramente com o modelo neoliberal e declarar, a priori que não se pagará dívida interna ou externa alguma antes que o povo brasileiro esteja bem empregado, educado e alimentado.

Cabe uma vigilância estreita para que o próximo governo não caia na mesma armadilha por nenhum dos caminhos armados pelos donos do capital. Nada de desviar recursos da produção, do emprego, da vida humana enfim, para a engorda do capital especulativo.

Será necessário trazer à cena os economistas, ideólogos e líderes trabalhistas que estão marginalizados pelo processo de esvaziamento a que os últimos governos lhes têm legado. Ouvir as alternativas propostas por aqueles que têm sido silenciados pelo stablishment acadêmico, ouvi-los e dar-lhes cargos de liderança. Posição firme a todos quantos tenham um comprometimento fechado e estreito com as gentes, com as pessoas que vivem, amam e trabalham. Optar por aqueles que, com bons motivos, odeiam bancos e banqueiros e toda a rapinagem que tem feito em nosso país ao longo dos últimos 12 a 15 anos.

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves 06/04/2006

 





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